sexta-feira, 31 de julho de 2009

Almoço de família

É bela. Sabe disso e quem a observa percebe pela delicadeza dos movimentos, cuidadosamente escolhidos. O deslizar do talher no prato mostra, ao mesmo tempo, distração e desprezo. O olhar distante transmite o desejo de estar longe dali e daquelas coisas pequenas que formam o mundo da mediocridade.

Na ponta da mesa, sentado com o corpo curvado, uma leve calvície denuncia a meia idade contrastada com a incomparável pele da juventude exposta na cadeira ao lado. Ela recebe olhares de todas as partes e ignora quando percebe. Ele retribui com hostilidade aos que o olham.

Quando necessário, volta-se à criança. Não se importa com o que ela come. Apenas tem medo que herde a mesma arrogância paterna. Antes de sair, olha para o relógio. Conta o tempo da vida. Lamenta cada minuto.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Noite das máscaras

Salão cheio de pessoas, luzes e notas musicais. Sorrisos à vontade partindo de todos os lados, de todas as mesas e corrimãos. Todos estão se divertindo na noite mais fria e mais bonita daquele ano: o, tão esperado, baile das máscaras.
Vê-se - atravessando a pista de dança – belas mulheres, moças e meninas, delicadamente acariciadas pelo corte de seus longos vestidos. Amarelos, vermelhos ou violetas, são sedutores e charmosos véus a cobrir belezas morenas, ruivas e louras.

E dando-se a miscelânea, pode-se notar sem qualquer dificuldade os olhares enigmáticos dos belos ternos de riscado, de linho e encanto. São homens, rapazes e meninos que demonstram sua firmeza de voz grossa, e sua disputa masculina de ombros mais largos. Eles não sabem dançar, mas elas não precisam saber disso.
E banhados pelos raios cor de sol que vêm do grande lustre no centro do salão, voltam-se agora todos para o topo da escadaria onde, no silenciar da música, virá a anfitriã: madame Jasmine.

Como previsto, eis que chega a bela dama, com suas belas jóias a refletir com as luzes amarelas, e o “J” pendurado em seu pescoço tão precisamente desenhado. Ela inteira é assim, um desenho de mulher. E tem em seu rosto a mais perigosa máscara: aquela que só esconde os olhos. Segura a máscara com aquelas mãos delicadas e também escondidas pelas luvas que levam o mistério até quase os cotovelos. Sua pele clara ingenuamente desperta curiosidade de cada um dos olhares masculinos ali presentes.

Os passos são precisos, as escolhas minuciosas. Cada gesto daquela mulher única era parte de um contexto imerso no bom gosto e medido pelo bom senso. Seus sapatos deslizavam pelo salão, a tal ponto que parecia dançar constantemente, tão leve eram seus movimentos.

Os olhares de cobiça vinham de todas as partes. Acompanhados e abandonados, feios ou belos, não havia naquela festa quem não se sentisse tentado a imaginar os olhos por trás daquela máscara. É difícil para ela não ser notada.

Não há um minuto de descanso sequer. Todos querem tirá-la para dançar. A disputa a excita, mas ela não deixa que isso transpareça. Embora a sua espera secreta seja pelo homem que seus olhos não viram no salão.

A aflição aumenta com o passar das horas. Já no final do baile, os poucos convidados que ainda saem de lá deixam o local, enfim, completamente vazio. Com os olhos úmidos, ela contempla por um instante o som do silêncio, e todas as histórias ali deixadas. Sente, então, a dor da perda, o peso da solidão e chora até que se esgotem todas as suas forças e um novo dia nasça e uma nova festa aconteça. Jasmine, finalmente, sem máscaras.


*Com os créditos para o autor H. Machado, que gentilmente aceitou minha modesta colaboração no processo de criação deste texto.

Em busca de paz

Penso todos os dias em pular do barco, mas não sei se nadar sozinho pelo escuro seria uma escolha atraente. Percebo ser cada vez mais difícil esconder-me atrás das árvores, mesmo ampliando o dicionário de metáforas a cada dia, na medida do possível.

Por outro lado, o silêncio seria insuportável. Todos os dias me pergunto quanto vale a minha paz. Ainda não entendi porque busco o caminho mais doloroso para tudo. Vejo imagens que não quero ver e para as quais não posso evitar olhar. Leio coisas que não quero saber, pois meus olhos ganham vida própria descobrindo cada uma daquelas malditas palavras.

Quanto me custa a solidão? Talvez tenha que pagar o preço e isso pode ser incrivelmente bom. Sinto-me como alguém que passou horas embrulhando um pacote para que outro o rasgue sem cerimônia. Mas acredite, eu não me importo com o presente, só com o tempo perdido.

Para me distrair do tédio, procuro o riso. Melhor é rir do infortúnio. Para cada olhar raivoso que recebo, retribuo com pena e isso sim faz meu dia valer a pena. Por que, como nas outras vezes, não me nutro de ódio. Cultivo apatia. E não insista, pois não me importo com nada disso. Sou tão duro e cruel quanto desejo ser. Talvez até sofra sozinho, mas hei de honrar o significado da palavra “nunca” para preservar minha personalidade sempre.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Uma foto irreal

Você é uma foto, nada mais do que isso. Eu olho pra única pose que conheço, o mesmo sorriso congelado. Escrevo, penso, imagino, desejo (!). Mas não digo, a discrição faz-se necessária. É superficial, nada romântico. Ainda assim, me rouba tempo.

A camuflagem é óbvia. Você pode suspeitar ser o tema, mas nunca terá certeza. Haverá sempre uma negação. Uma explicação tola. E melhor que seja assim: platônico. Pode parecer infantil. E é mesmo. Também não me importo. A pretensão é nula.

Escrevo recados, eu sei. Bilhetes que nunca são lidos. Significantes órfãos de sentindo. Semântica descontextualizada. Gritos no volume de sussurros. Mas, ainda assim, há registro. Pura vaidade ou preciosismo, é provável. Mas se algum dia meu sol nascer no teu leste, saberá que estava previsto.

A falta da infância

Estive ausente por um longo tempo. Há muito não sentia a sensação da terra tocando os pés. E quando avistei a vendinha do “Seo” Luiz na esquina da rua da igreja, me senti ainda mais saudosista e triste. O prédio velho abandonado, com as paredes descascando já foi importante. O bar do “Seo” Mário agora tem outro dono. Não me lembro o nome dele, mas sei que esse não se senta à mesa para prosear com os velhinhos da praça. Aliás, para onde foram os velhinhos que jogavam dominó todos os domingos na sombra daquela árvore? Também não vejo mais a árvore. Mas os bancos e mesas de concreto ainda continuam lá, verdade que bem arruinados, mas não chegaram a ser destruídos.

Minha maior ansiedade era pra fazer, de novo, aquele caminho que passa pelo túnel das jabuticabeiras, que cortava uma volta e dava na rua sem saída. Lembro-me que em todas as manhãs implorava à minha irmã que por lá fossemos para a escola. “Mas a escola é do outro lado”, dizia ela. As jabuticabas continuam lá, mas o terreno agora é murado, com portão eletrônico e as frutas, provavelmente, apodrecem no chão. Será que o passarinho que enterrei continua lá?

Quem sabe na rampa de skate tenho mais sorte. Mas, agora, tudo que lá vejo são patinetes motorizados e coisas do tipo. Será quem alguém por aqui ainda usa skate? Em plena era do vídeo game...

A morte chega quando tudo o que é externo se modificou. E nossa alma continua velha, ou jovem, que se esqueceu de crescer e amadurecer. Pensei que quando a visse, seus olhos ainda brilhariam. Achei que suas mãos ainda ficariam trêmulas quando a tocasse. Durante muito tempo alimentei a esperança de vê-la sorrir de novo pra mim. Depois de tantas promessas que me fizeram acreditar ser especial, vi que minha imagem não estava nessa seção. Dentre tantos amores, tantos desencontros, em meio a tantas incertezas, ingênuo que sou, pensei algo sobraria. O sorriso novo em seu rosto explicou tudo.

Continuei caminhando pela antiga vila analisando o passado. A sensação de morte agora era mais forte. Senti a vida fluir. Tentava lembrar-me do cheiro das árvores que diferenciavam a rua, mas cada vez que fechava os olhos via aqueles cabelos médios, agora voando na direção contrária. Andei por quase uma hora, até sentir, de fato, o peso do infortúnio humano. Sentei-me junto a uma palmeira, até que adoecesse e morresse.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sobre a verdade

Pra dizer a verdade, não sinto a menor falta.
Não quero de volta.
Não quero que volte.
Odeio quando se justifica.
Não devemos nada um ao outro.
Deixe-me solto.
Voe pra outro.
Livre-me desse amargo gosto.
Definitivamente, apenas perda de tempo.

Se for só chamar...

Por onde anda você depois daquele dia? Será que causei espanto ou coisa parecida? Fico lembrando do gosto doce das frutas e da doçura do sorriso. Às vezes refaço todo o percurso mentalmente, só para me sentir mais próximo de novo. Claro, não temos mais toda aquela juventude, mas acho que é nisso que está o charme da ocasião.

Esses seriam os dias em que pensei ouviria o telefone tocar. Prefiro pensar na impossibilidade casual. É claro, nada destruiria o imaginário. É muito mais simples alimentar ilusões improváveis. Quem sabe o telefone toque. Quem sabe um dia.

Vestígios

Não me importo que você vá embora, desde que não fique voltando.
Tudo bem se você não me atender, mas, por favor, pare de me ligar.
Eu pretendo me esquecer do seu rosto.
Já me livrei do seu corpo
Então, saia dos meus sonhos.
Esqueça-me.
Nós não somos amigos (nem seremos).
Não te quero por perto.
Se ainda desejo algo, é apagar todo o passado.
Matar você em mim.
Pra poder morrer em você.

Quando se esquece

Ele acorda no meio da noite, molhado de suor, quase em desespero. Respira, pensa no que fazer, sente medo, está em crise de ansiedade. Conhece bem os sintomas, a boca seca, o corpo formiga, o estômago gela. Há a necessidade de alguma ação imediata, mas o relógio marca 4h18 da manhã. Sabe que estará de pé às 7h, mas deseja resolver tudo (pelo bem ou pelo mal) agora. Ele veste-se, roupas velhas, não há tempo para vaidade. Pega o carro, sai pelas ruas desertas, tem mil inspirações.

A viagem é curta, leva cerca de 15 minutos. Ao chegar, desce com aquela lembrança nas mãos, o objeto que só os dois entenderiam. Pensa estar sendo romântico e num ato de loucura toca a campainha e espera que ela saia. Descabelada, ainda atordoada pelo susto, vestindo aquele moletom velho, ela pergunta:

- O que você faz aqui a essa hora?
Ele percebe que o clima não fluiu como imaginava, mostra o objeto e ameaça uma frase:
- Eu trouxe...
Ela balança a cabeça censurando-o e ele sente vontade de não ter ido. Cinco longos segundos se passaram até que ela se manifestasse, agora concorrendo com o barulho feito pelos cães da vizinhança, em alvoroço com a movimentação.
- Eu não sei o que você pretende, mas seja lá o que for que estiver pensando existir, acabou. Não acredito que esteja aqui agora.
Numa última tentativa ele interrompe:
- Queria te mostrar isso – diz, mostrando o objeto tão valioso.
- O que é isso?
- Você não se lembra?
- Não.

E ele retorna, sentindo, agora, o peso da distância; os 15 minutos da volta pareciam 15 horas. Viviam vidas diferentes. Tudo parece explicado. Ele a esquecerá, pois já não tem outra opção. Deita sentindo-se ridículo. Acorda odiando-se. E ela simplesmente não se lembra.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O marciano

A mochila nas costas leva todos os indícios do trabalho braçal que ele esconde, assim que coloca o primeiro pé fora daquele lugar. As roupas com as quais sai não são as mesmas com as quais entrou. Tudo faz parte do trabalho mental de desligamento daquela vida medíocre, sempre igual, por todos os dias. Depois de alguns passos, nem mesmo parece a mesma pessoa e nem pretender ser. Muda os hábitos, muda o cheiro, muda os assuntos, muda.

Amanhã bem cedo, como em todos os dias, a vida lhe lembrará quem é. Mas isso não importa desde que, ao final do dia, ele possa de novo se transformar em um homem sem nome, uma pessoa sem passado a vislumbrar um futuro tão pequeno. Os pelos do rosto precisam ser bem raspados, quer parecer ainda um menino, embora já longe dos 30.

Não há uma única mulher. Existem várias, entre as reais e as imaginárias. Nunca se apaixonou. Não viu, de fato, o amor. Nenhum amigo o persegue. As pessoas são várias, em todos os lugares possíveis, mas elas o encontram, sempre, por um curto período, até que ele parta, sem dizer adeus, sem deixar saudades, sem desejar voltar. Isento de traumas, livre de obrigações, apenas uma breve fase sem muitas histórias, mas com centenas de antagonistas esquecidos.

De noite, sai a passeio. Quilômetros contados. Despesas sempre apertadas. Família distante, pensamentos inatingíveis. Ninguém consegue se aproximar. Nem mesmo ele quer isso. Talvez um pouco de ginástica. Possivelmente, substâncias ilícitas. Quem sabe? Difícil dizer. O importante é que aparência não mude. O dinheiro não rende. E o dia se repete.

Há quem acredite que ele não seja real. Outros se dizem próximos, mas nem ao menos se lembram da última visita. Seria ele um marciano? Por onde estará ele agora? O certo é que, no próximo encontro, haverá um sorriso sem graça e um “até logo” com a promessa de nos vermos em breve. Então, ele desaparece.

domingo, 19 de julho de 2009

O pássaro e o menino

O menino espia atentamente o vôo sobre as árvores. O pássaro não é belo. Mas completa a natureza naquele momento. E o que vem a ser o menino naquele cenário? Ele é o agente que desequilibra. A tranqüilidade do pássaro que flutua (talvez) inocentemente será interrompida. Mas ele ainda não sabe. O menino move-se aos poucos e lentamente. Tenta não ser percebido. Só pode haver maldade nessa camuflagem.

Onze ou doze anos de idade. Quantas poucas experiências nesse curto espaço de tempo. Mas os sentimentos são inerentes ao ser humano, assim como a morte pode se manifestar cedo demais para as pessoas, não necessariamente de maneira direta, mas muitas vezes acontece indiretamente. Quanto tempo uma pessoa leva para ver um cadáver? Há certos adultos com pelos no rosto que ainda evitam a cena, mesmo nos filmes em que tudo não passa de maquiagem.

O pequenino sabia que a morte iria se manifesta ali. Mas não tinha a idéia do real contexto em que isso se sucederia. Então ele saca o estilingue. Foi feito com forquilha de galhos firmes que providencialmente ocupavam a calçada do terreno a frente de sua casa. O elástico e tudo mais comprado na selaria. Estava armado. Mas não associava isso a nenhuma forma de proteção e, até então, não havia pensado como predador.

Já na esquina, o velho homem, também a observar os pássaros desafia. “Quero ver se consegue mesmo acertá-lo”. O menino hesita, mas logo alguém que chega afirma: “Essas pragas trazem doenças, não há pecado em matá-las”. O mundo das possibilidades havia se formado bem na sua frente a cabia a ele escolher um posicionamento.

O pobre menino não diz nada. Mira com o estilingue e acerta em cheio uma pedra de tamanho médio na superfície do pássaro, que vai do topo da árvore ao chão. E todos acham graça, elogiam a pontaria. “Esse aí vai ser atirador”. E as pessoas se dispersam pela rua. Estava acabado o show. E o menino chorando corre para a casa a procura da mãe, que o abraça sem entender o choro inconsolável. Soluçando, ele tenta explicar o que houve, mas sente vergonha de contar a história. A mãe apenas diz: “Não há nada que você queira me dizer que eu não consiga ler em seus olhos”.

Os dois permanecem ali abraçados, em pleno sol do final da manhã, por mais de uma hora. Aos poucos os soluços foram diminuindo e as lágrimas secando. Até que ele adormecesse por completo no colo da mãe.

Raiva

Se houvesse medida para a raiva, talvez fosse possível mensurar meu estado de espírito. Mas, calculista que sou, não terei nenhuma atitude exacerbada pelo ódio. Já tive fases de desencadear ações pela emoção e depois me arrepender. Não tenho mais a mesma inexperiência. Sei esperar, consigo refletir sobre fatos e suas conseqüências.

Não sou o melhor escritor que conheço, mas tento fazer algo que valha a pena. Da mesma forma, procuro agir com as pessoas. Sei que tenho incontáveis defeitos, alguns difíceis de aceitar, mas procuro oferecer o que de melhor tenho dentro de mim. Não, não sou um santo e nem pretendo.

Tudo tem sua hora e seu lugar. A vingança é um prato que se come (bem) frio. Mas o mal é que quando ele chega, já perdemos a fome.

sábado, 18 de julho de 2009

Obrigações

Eu não me sinto na obrigação de ser educado com quem não quero.
Eu não acho que tenha que comparecer em eventos indesejados.
Ninguém precisa seguir regras sociais.
Eu odeio manter certas aparências.
Gostaria de abrir a janela e mandar-te ir embora.
Não quero suportar tais companhias.
Eu preferiria viver melhor.
Queria sofrer menos, rir mais vezes.
Comer hot-dog por opção.
Falta-me paciência.
Sobra-me irritação.
Se achar por bem, levanto-me e parto.
Não devo nada a ninguém.
Pelo menos por enquanto.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O dia

Passa algum tempo em frente ao espelho. Bobagem. As coisas são o que são, permanecem essência. O caminho não é muito longo, mas o relógio parece correr depressa e o atraso poderia ser decisivo. Mas ele corre, chegará a tempo. No percurso, pensa no que dizer, deseja parecer engraçado, almeja transmitir carinho, gratidão.

O cumprimento inicia o diálogo. A visão é embriagante. Quanto tempo esperado para que, de novo, associasse a voz àquela imagem, então, parada em sua frente, com um sorriso inconfundível de quem vê a vida com simplicidade. Claro, todos os problemas estão camuflados e a intensidade do momento não permite perder tempo com eles. A companhia é a agradável. Ao lado, um sorriso semelhante, de criança encantada, rouba a cena e todos sorriem de volta pra ela.

Dura pouco. Mas não é o fim.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Wafer

Distraidamente, ela puxa um biscoito do pacote, saboreia, como se aquilo não fosse importante. Ele observa e pensa: “Ela come wafer”. O café fica um pouco amargo em contraste ao gosto de chocolate. Forçando a vista, ela se concentra no vídeo, ele esquece o filme, contempla seus gestos e pensa na intensidade daquele instante que revelara hábitos simples, preferências, pequenos traços de identidade.

Vez ou outra, ela percebe ser observada e retribui o olhar, não entendendo o motivo de tamanha abstração. Ele disfarça, limpa os farelos de biscoito na roupa, esboça um sorriso de satisfação e volta os olhos para a tela. Suspira discretamente e pensa uma última vez: “Wafer”.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Análise da cena

Ternos escuros, óculos escuros, vida obscura.
Bebida destilada, segredos incontáveis, caráter dúbio.
Passos incertos, desejos secretos, palavras ambíguas.
Atitude ambivalente, palavras obscenas, sussurros indiscretos.
Confissões contidas, carícias omitidas, silêncio consentido.
Laços rompidos, casos perdidos, orgulho ferido.
Madrugada, sono, casa.
Enfim, sonhos e lágrimas.

sábado, 11 de julho de 2009

Viagem

Já havia esquecido seu rosto, mas o gosto da sua boca ainda estava nele. Distraía-se com outras moças, mas aquele olhar o seguia onde quer que fosse. Queria poder não lembrar, mas em dois ou três segundos seu pensamento voava e de novo estava ele a ouvir o som daquela voz o convidando para mais uma noite de promessas intermináveis. E todos os lugares por onde passavam ficavam marcados pela energia de quem fingia deixar ser amada.

Outras fotografias confundem suas impressões. Mas a cada álbum folheado, uma pausa para admirar aqueles cabelos dourados e trazer à tona, novamente, todos os momentos compartilhados. Pensou em rasgar as fotos. Não o fez. Tentou fechar o álbum. Inútil. Misturava as imagens, comparava (sempre). Chegou quase a se conformar com a infelicidade, com sua pouca sorte, falta de oportunidade.

De repente, abriu um livro, encontrou uma dedicatória muito antiga. No meio, uma foto desbotada, esquecida desde os tempos antigos em que cultivava sonhos. E percebeu como seu emocional estava pesado com tantas recordações, algumas poucas saudades e outros tantos desejos. Juntou tudo numa caixa de sapatos. Ficou inerte por quase oito minutos, totalmente deslocado de si, pensando no que está longe e no que estava próximo (e percebeu que isso facilmente se inverte).

Decidiu fazer as malas. A distância seria apenas um detalhe. Teve medo de não ser reconhecido. Mas optou por rever quem estava longe e, ao mesmo tempo, esquecer quem de perto, já há algum tempo, o desestabilizava. O caminho é relativamente longo. Deseja ardentemente que ela o aguarde. Teme que ela mude de idéia. Mas parte, na esperança de que tudo vai dar certo outra vez.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Providências

Certas obrigações sociais me deixam realmente intrigado. Claro, não há nada que se possa fazer a esse respeito. Mas a liberdade artística pode ser cerceada injustamente, a cada convenção burlada, com prejuízos incalculáveis. Quando a emoção perde o lugar para razão, a sensibilidade deixa de existir e então, tudo perde completamente o sentido.

Não pretendo me calar. Há tempos suporto a dor da percepção e enfrento todas as dificuldades, técnicas e emocionais, para dar voz ao intraduzível no mundo dos espiritualmente mortos. Possivelmente eu me renderei a certas pressões. Mas nem por isso me esconderei atrás do imediatismo. É contra essa ansiedade maldita que luto todos os dias.

Eu sei, parecerá simplista, mas, embora seja estranho, faz-se necessário nesse instante. E ao final, ainda estaremos aqui, eu e você, discutindo coisas belas e bobas, sorrindo, aos prantos, não importa. Estaremos atuando até depois de partir, em todas as esferas.

Telegrama

Eu tava triste tristinho
mais sem graça que a top model magrela
na passarela
eu tava só sozinho
mais solitário que um paulistano
que um canastrão na hora que cai o pano
tava mais bobo que banda de rock
que um palhaço do circo vostok

mas ontem eu recebi um telegrama
era você de aracaju ou do alabama
dizendo nego sinta-se feliz
porque no mundo tem alguém que diz
que muito te ama que tanto te ama
que muito (muito) te ama que tanto te ama

por isso hoje eu acordei
com uma vontade danada
de mandar flores ao delegado
de bater na porta do vizinho
e desejar bom dia
de beijar o português da padaria
oh mama oh mama oh mama
quero ser seu
quero ser seu
quero ser seu
quero ser seu papa

Eu tava triste tristinho
mais sem graça que a top model magrela
na passarela
eu tava só sozinho
mais solitário que um paulistano
e um vilão de filme mexicano
tava mais bobo que banda de rock
que um palhaço do circo vostok

mas ontem eu recebi um telegrama
era você de aracaju ou do alabama
dizendo nego sinta-se feliz
porque no mundo tem alguém que diz
que muito te ama que tanto te ama
que muito te ama que tanto (tanto) te ama

por isso hoje eu acordei
com uma vontade danada
de mandar flores ao delegado
de bater na porta do vizinho
e desejar bom dia
de beijar o português da padaria
oh mama oh mama oh mama
quero ser seu
quero ser seu
quero ser seu
quero ser seu papa

(mê dê a mão vamos sair pra ver o sol...)

Música de Zeca Baleiro
Fonte: Vagalume

Os caminhos

Ele apoiava os braços no carro verde e olhava incansavelmente para aqueles olhos distantes, que pareciam estar ali apenas para passar o tempo. “Eu tenho segurança”, afirmava ela ao hesitar o olhar que a fuzilava de frente. “Talvez fosse mesmo verdade e o melhor seria ir embora”, pensava ele, sem pronunciar tais palavras, apenas concentrado no momento único e inesquecível, dentre tantas cenas que aquele estacionamento de asfaltado iria presenciar ao longo dos anos.

Mas a cena do vinho branco na taça improvisada, as escadas de concreto que magicamente se transformaram em palácio e tudo mais que compunha o cenário daquele beijo apaixonado não lhe saiam da cabeça. Mas haveria de esquecê-la. Os caminhos já estavam tão distantes que nem mesmo poderia imaginar.

E eles partiram em direções opostas, sem mágoas, sem dor, sem traumas. Abandonaram as cartas manuscritas e contentaram-se com os contados eletrônicos. Mesmo esses se tornaram escassos, na medida em que o cotidiano roubava-lhes o tempo precioso que teriam que perder. Mesmo tais desvios temporais e espaciais não iriam apagar o afeto, por vezes fraternal, quem dera carnal, ao menos nos mais altos sonhos, jamais mencionados.

“Um beijo apaixonado”. Essa era a idéia que lhe corria a mente, sem que ele pudesse entender. “Teria o afeto atravessado todos os percalços, milagrosamente, até o presente momento?”. Não existia coragem suficiente, nem para a pergunta, menos ainda para a resposta. Ele, então, fecha os olhos, reflete e a olha com aprovação, como quem diz “Estou mais perto do que possa imaginar”. E as vidas seguem pautadas pela distância, ansiosas pela expectativa dos desejos proibidos, das palavras silenciadas e da esperança do beijo tão apaixonado como deveria ser. Tudo vai ficar bem.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O nome

Havia me esquecido o nome dela. Lembrava talvez de algum apelido carinhoso, desses que se fazem pelo diminutivo. Mas o encontro dos olhos com a grafia do nome causou uma sensação estranha, como aquela que sentimos ao nos deparamos com o desconhecido – que nesse caso, deveria ser conhecido. Quando ela chegou mais perto, a beleza de seus olhos claros fez faltar o ar e provocou um misto de satisfação com uma saudade física.

Como não havia a menor possibilidade de iniciar o diálogo, me concentrei por um bom tempo na escrita de seu nome. Pedi uma bebida e um guardanapo. Tirei uma caneta de bolso e rascunhei descompromissadamente seu nome, enquanto observava o charme do seu olhar e seus cabelos soltos.

O verde me hipnotiza. Não consigo desviar o olhar. Dou um sorriso pra mim mesmo, pensando em o quanto o mundo pode ser pequeno. Por um instante, quase me esqueci de toda a tormenta que me cerca. Prolonguei o momento de contemplação. O contraste do verde no branco agora tem um efeito devastador. Estou acabado. Mas me sinto bem. Ela jamais teria me visto. Se visse, não teria entendido. E isso torna tudo ainda mais especial. Não importa se é inesquecível, nunca teria durado o suficiente, embora, talvez, tenha sido bom. Há certas cenas que não se repetem. Ainda bem.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Um pedaço de vida

Três ou quatro doses. Talvez um pouco menos. Mas o corpo já apresentava os sinais de embriagues. A luz dos faróis dos outros carros também ofuscava a vista. A música estava no volume alto. Alto o suficiente para que sua alma sentisse a dramaticidade do momento vivido. Oito e meia da noite. Não é nenhuma metrópole, mas ainda encontra uma floricultura aberta. Compra um botão vermelho. Poderia roubá-lo, seria até mais charmoso, mas daria muito trabalho e o efeito seria o mesmo.

A rosa é colocada na parte superior do painel do carro, próximo ao pára-brisa. Segue numa velocidade média, para ainda conseguir apreciar a desgastada paisagem do caminho. Perde-se, não encontra a casa. Quinze muitos e já encontrou. Estaciona na esquina, desce, fecha a porta com cuidado, a rua ainda está movimentada, mesmo para a cidade pacata. E ele espera o momento oportuno.

A vê chegando, parece que alguém a acompanha. Sim, já era esperado. Sente a boca amargar como das outras vezes. O estômago reage como de costume. O rosto formiga. Na despedida, um leve beijo, não no rosto, na boca mesmo. O frio atravessa a espinha. Trêmulo, continua olhando, agora com mais cuidado para não ser visto. O cartão ainda está em branco, não será necessário rasgar. Solta a rosa ali onde está. Ela entra sorrindo, ele parte sofrendo.

No carro, voltando pra casa, tenta mudar a música, mas todas dizem a mesma coisa. O amor está em pauta. Incrível como o subconsciente nos trai. Nem as estações de rádios confortam. Pensa em desligar o som, mas o silêncio machucaria seus ouvidos, nessas circunstâncias. Enquanto dirige, rasga o recibo da floricultura. Melhor não ter que contar isso a ninguém, seria constrangedor demais para o seu ego.

O efeito do álcool já havia passado completamente. Mas seu fígado já parecia rejeitar outra dose. E isso o motiva a parar num bar e pedir mais uma. Um problema maior o faria esquecer a cena do beijo que lhe vinha à mente imperativamente, sem que nada pudesse ser feito para suprimir essa sensação.

Não tem vontade de ir para casa. Prefere não ter que responder a pergunta que fatalmente seria feita. “Por que tão cedo aqui?”. Seria necessário mentir, inventar uma história, de preferência alegre para não se permitir cair no choro. Nesse instante umas poucas lágrimas correm pelo rosto. Não pelo beijo, não pela moça, menos pelo intruso. Era uma auto-piedade. Uma raiva de si mesmo. De acreditar nas possibilidades. De tentar negar o conformismo.

Continua a dirigir. É terapêutico para ele. Na rua, as pessoas parecem bem demais. Ninguém sofre. Não há questionamento, nem inquietações. Sente-se desconectado. Procura na agenda, nenhum nome disponível. A situação só piora. Pensa em voltar para casa. Hesita. Encontra alguém no caminho, um aceno e nada mais. Um aceno que para ele estava com um letreiro luminoso pedindo por ajuda, uma palavra de paz. Passou.

No dia seguinte, o hálito denunciava a última noite e a primeira associação que lhe veio à mente: o beijo na despedida, a rosa caída na calçada. Pelos corredores, a moça passeia bem humorada, se aproxima. Ela, desnecessário detalhar sua beleza única, o encara amistosamente, com um sorriso e uma saudação. Ele sente vontade de abraçá-la, esquece-se do beijo, queria entregar-lhe a rosa, perdoa tudo nesse instante. Mas ela passa, sem que ele responda. Eles cruzam-se mais algumas vezes, antes que ele arrume as malas. Na bagagem, roupas velhas, na mente, velhas lembranças e no coração, saudade eterna dos tempos que nunca vivera depois de caída aquela rosa.

Referências

As pedras da calçada me forçam a refletir sobre a imperfeição do caminho, assim, numa esfera metafórica. Tropeço numa, duas pedrinhas descoladas. Chuto. Respiro fundo. Sigo. Tudo isso me distrai. Muitas linhas serão criadas antes que as coisas voltem ao normal. Mas o importante é que voltarão.

Por mais que eu grite, minha voz nunca será ouvida. Nada que eu diga surtirá efeito. As canções nunca mais terão o mesmo sentido. As referências mudaram e esse é um caminho sem volta. A dor da percepção é insuportável, mas se faz necessária. Corro para que o tempo passe depressa. Para não encontrar com as pessoas. Não quero dar explicações. Não preciso de ninguém para ser como eu sou. Eu só preciso de mim mesmo, mas este está disperso em todas aquelas pessoas com as quais cruzei.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

"Olhos nos olhos"

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

*Música de Chico Buarque

Em primeira pessoa

Talvez eu apague todos os posts. Difícil encontrar o sentido de tudo isso quando olho no retrovisor de emoções. Caminho, paro, reflito. Olho, penso, choro. Não há nada que conforte a aflição, nem tampouco me sinto perto de entender os sinais que a vida me envia. Mais uma vez a ingenuidade me castiga. Sinto um misto de ódio e tristeza É certo que eu não tenho parâmetros para entender a crise, principalmente quando ela se alastra incontrolavelmente pela minha percepção. E minha sensibilidade está aguçada, na pele, na alma.

No momento, tento me concentrar nas coisas positivas, que não são poucas, embora a quantidade não seja sinônimo de peso. Mas minha mente não atende aos apelos de auto-ajuda, e, ao contrário, por vezes, desejo a dor e tudo aquilo que ela possa me proporcionar de positivo (exatamente, é nisso que me concentro).

Penso em metáforas que possam traduzir o sentimento. Não as encontro. É provável que exista alguma limitação pessoal com a língua e, exatamente por isso, me obrigo, nesse instante, a me manifestar nesta forma. Vislumbro o final de tudo isso, mas quando penso nos outros finais pelos quais passei, entro em nova crise, percebendo, que, paradoxalmente, embora nada seja para sempre, todas as marcas permanecem a me machucar e a me lembrar de quão bom pode ter sido a experiência, mas do quão ruim podem ser as conseqüências.

Há uma necessidade interna de revolucionar. Um desejo de surpreender. Melhor dizendo, de chocar, provocar dor, tempestade, buscar a calamidade. Não sei como isso vai acabar, até posso imaginar; as pessoas são previsíveis. Mas sei o quanto isso irá me afetar emocionalmente.

Interrompi o percurso. Olhei para trás. Senti vontade de nunca ter vindo nessa direção. Não há como voltar. Também não posso seguir. Estou no final do beco, de frente para o fim, sem ação, com os olhos fechados para não sentir o choque. Sei que irei me fortalecer, outras dúvidas surgirão. E, assim, eu hei de seguir rumo ao fracasso da compreensão humana e ao topo do auto-conhecimento.

sábado, 4 de julho de 2009

A rotina

Parece que o sol nasceu. Abriu os olhos. Pronto. Estava acordado. Tudo de novo, como ontem. De repente se lembra. Escuta a música que não lhe sai da cabeça. Pensa no que sonhou. Nada intenso. Inicia o ritual. Sem café da manhã. O sono provoca. Deseja ficar na cama. Levanta. Começa o dia. Veste-se bem; ela o verá. Escolhe as peças com cuidado. Ajeita a roupa informal. Charme.

Caminha, chega ao corredor. “Bom dia” para todos. Sorriso para poucos. Olhares para ela. Hesita um pouco antes de sair. Tenta um recado pelo olhar. Ela desvia. Não entende. Perdera o charme. Por um momento nem se importa. Espera o dia passar. Sente-se triste. Tédio. Raiva. Triste de novo. Ainda 10h30. Agora sim café, preto, doce, meio copo.

Fim do dia. Esbarram-se no mesmo corredor. Saem juntos. Conversa informal. Separam-se. Não se despedem. Não olham pra trás. De novo triste. Pula o tédio. Direto à raiva. E continua. Tenta esquecer, não consegue. Tenta odiar, talvez. Busca o desprezo. E se trai. Deita. Dorme. Sonha. Morre.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Chegada a hora

Ele olha pela janela do apartamento enquanto ela, no canto da sala, logo às suas costas, chora baixinho. Ele vê um, dois carros passando, ela se lembra da árvore sobre a qual se beijaram pela primeira vez. Ele se volta para dentro, fita rapidamente o olhar no olhar dela, e continua seu silêncio. Ela lembra do dia em que o chamou para subir pela primeira vez, ele procura entre as coisas as suas próprias coisas. Ela chora como chorou pela segunda vez quando o quis por perto, ele põe outro objeto sem importância dentro da sacola plástica. Ele, voltando do quarto de dormir, está assegurado de que lá não ficou nada seu, ela já procura um jeito de retirar do quarto tudo que a faz se lembrar dele. Ele passa pelo corredor, vira a porta da sala de estar na qual ela ainda chora. Ela, desajustada, não se preocupa em dizer nada, tudo já está entendido por ele. Ele já sabia deste momento, ela também. Ela, a cada dia, era um dia mais próximo dessa ocasião, ele, a cada dia, estava um dia menos angustiado de outras ocasiões. Ela o esperava toda semana, ele esperava toda semana passar. Ele, comprometido, a conheceu na faculdade, ela, solteira, o conheceu em um dia de primavera.

Ele põe a sacola dentro de uma bolsa, ela fita a bolsa para nunca mais esquecê-la. Ela sabia que um dia ele chegaria, e pela primeira vez não haveria beijo, presentes, sexo, e água gelada depois. Ele sabia que nesse dia ela choraria. Ela faz um balanço do que ele significou em sua vida, ele balança a bolsa até a segurar com os ombros, encostando em suas costas. Ela se lembra dos seus telefonemas e dos dias em que trazia alguma surpresa, ele está surpreso, pois, tudo estava como deveria estar. Ele também chora, mas não quer que ela veja. Ela chora desesperadamente, na esperança com que seja percebida por ele. Ele termina o copo d água enquanto ela pensa em se desfazer do copo. Ela já o vê abrindo a porta e indo embora para sempre. Ele ainda segura um passo, faz que vai e se vira para ela. Suavemente, ela gira a cabeça em sentido contrário ao olhar dele. É uma reprova. Ele se machuca com a atitude dela. Ele parece cicatrizar com essa negação. Ele se volta, baixa a cabeça e passa pela porta, que é batida com leve força por ela. Ela então encosta na porta e solta o peso do corpo, ele, do lado de fora, a escuta escorregando até o chão. Ali ela chora até sentir sede e adormecer, enquanto ele entra em seu carro e volta para a casa.

com os merecidos créditos para o autor Varela

De frente para o fim

Sabe aquele gosto amargo que dá na boca? Aquela sensação do abismo, não mais do medo, mas da dor pela sensação da perda. A cena toda perde a cor. Tudo fica preto e branco. O mel perde o sabor. Já estava perdida definitivamente aquela história e tudo deixaria de existir, como água corrente que se renova antes de transbordar. Quantas inúteis tentativas de encontrar uma única palavra capaz de traduzir o intraduzível.

As mãos nunca mais se tocarão. Agora há uma certa resistência, a proximidade não é mais bem vinda, de repente os objetos se derreteram, o mundo todo virou um grande borrado. As lágrimas são secas, não há mais nenhuma. Todas já foram derramadas ao longo dos anos. E todas aquelas lembranças, agora indesejáveis, antes sonho, agora mágoa, perderam-se pela sala. Quem dera fossem levadas de vez. Mas elas permanecem, agora machucando.

De repente, sente a vontade de não ter vivido esse dia, deseja apagar os anos. Quando mais tenta, mais permanece a incomodar. Nenhuma saudade deverá existir. Nenhuma vontade irá se sobressair. Tudo o que pode restar é o desejo de nunca ter visto o que seus olhos viram, de não ter sentido a intensidade do momento, de ter enfim, manchado todas aquelas palavras a ponto se tornarem irrecuperavelmente ilegíveis.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Estranho

Tudo pode parecer estranho às vezes. Por que a bicicleta azul não sai da cabeça? Talvez pela simplicidade com que o homem que a empurra percorre o trajeto, com um único objetivo: chegar ao destino final. Não há espaço para observações desnecessárias e consumo extra de sua energia. Mas o caminho a seguir pode ter definido o sentido do seu dia, de maneira literal, desconectado de qualquer metáfora clichê.

As pessoas podem ser estranhas. Reparar ou continuar é uma questão de opção. Normalmente, seguir em frente e ignorar os detalhes dá menos trabalho. Mas é difícil não refletir quando as evidências são fortes. E com isso, as pessoas se tornam cada vez mais questionáveis, com atos cada vez menos compreendidos.

Mas tudo poderia ter sido diferente. Bastava ter dobrado mais uma esquina. E as ilusões ainda estariam lá.