domingo, 28 de agosto de 2016

A liberdade ensaiada

A liberdade pode ser um conceito tão abstrato quanto a imaginação. A mente pode ser livre ou prisioneira, por escolha ou necessidade. Eu não sei como é ser você. Eu não sei como seus olhos veem o céu para além do grande concreto. Estamos em lados opostos. Esse é o lado B.

Um passo atrás do outro até o grande o dia. Não tão grande para mim, mas grandioso para você. A ruptura é grotesca e com medidas desiguais. Enquanto folheio uma a uma as páginas preenchidas, penso em cada pensamento para cada palavra extra registrada, cada contorno de letra destacado. Deixado pra trás, como todo o resto que foi dito, agora, completamente esquecido.

A marca está registrada, à caneta, à lápis, desenhada, detalhada, nada se desfaz. Uma bobagem, eu sei. Cada traço será esquecido rapidamente, coberto por outras coisas, até desaparecer. Mas há uma lembrança interna, uma falsa esperança de que você se desvie do óbvio. Haja o que houver, não haverá volta. Não aqui. No fundo, nós sabemos: o próximo estágio será cumprido.

Longe de controle, de qualquer contenção, os nervos serão diferentes, as atitudes desparecerão e todas aquelas reflexões, palavras positivas, tudo será apagado, como tantas folhas deixadas pra trás, como se nada mais existisse, além do horizonte baixo ao alcance dos olhos.


Por quanto tempo? Nunca saberei.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Antes da última vez

José, quando olhou no espelho, percebeu que perdera completamente a razão, em cada um dos seus passos tortos. Acariciou lentamente a braba lisa, fina, como quem estivesse acordando. Não haveria qualquer razão para fazer aquilo, senão fugir de tamanha agonia em seu coração. Já não pensava com a mente e isso era extremamente perturbador.

Pensou em escrever mais um texto, pseudoliterário, e foi então que percebeu que ninguém leu os últimos. Estava falando consigo mesmo, o tempo todo. Um monte de papéis velhos sem qualquer importância. Pensou em apagar todas as histórias, destruir todas as metáforas. Não seria a primeira vez que lhe passara na mente essa ideia extrema. Afinal, como seria zerar a vida?

Contemplou a flor da sala, tão bela naquela noite de pouca lua, em que luz se afunilava em reflexo na mesa como se sugasse toda a sua alma ao acaso. Olhou ao redor para ter certeza de tudo que tinha. Não ousava dizer, pois a dívida com Deus era grande demais para questioná-lo de qualquer coisa. Mas sentia-se só, em alguma instância de sua existência, de repente tão medíocre.

Lembrou de tantos afazeres incompletos, mas dali não se mexeu por motivo algum, que não fossem os próprios dedos a registrar. Ouvia músicas tristes, pois assim gostaria de estar naquele momento. Lamentava que tão curta fosse a noite para tanta intensidade de pensamento. Mas que porcaria de ausência é essa que sente a ponto de tropeçar nas letras?

Quando foi que ela o olhara daquele jeito pela última vez? Só poderia ser isso. E, sabia, em seu mais íntimo medo que gostaria de não pensar. Não ser. Não sentir. Não querer. Um pensamento fortuito lhe invade: “mas por que ela me acha um ser bom”? Sentia que não merceia, porque a tristeza causava exatamente essa sensação de pequenez em seu peito.

Correu os olhos pela tela limpa, sem qualquer sinal de que havia voltado. Sentiu, de repente, a noite mais longa. Não importa quanto sono teria na manhã seguinte e sabia que seria muito. Alucinações perturbadoras sobre a mesa vazia, o garçom de costas, o bar apagado. O silêncio era tão absoluto que a música parecia tocar em seu corpo, como parte de si.

Sabia que era um covarde. A palavra é forte, jamais ousaria dizer, mas no fundo sabia. Contentava-se com tamanha artimanha a ponto de inverter os valores. Pensava em tornar-se mau. Imaginou em como alimentar a maldade em seu coração, com a esperança falsa de que os maus sofrem menos.

Trombou sua vista com a frase imaginária, o velho clichê de toda sua vida: Você acredita no amor? Trocou respostas com sua mente, imaginando as duas únicas possibilidades, quando um ápice de percepção aparece na mente como um sábio de barba branca dizendo: “Acredito tanto que se multiplica o sofrimento por não saber”.
Olhou ainda mais triste para os móveis tristes, outrora tão alegres. Quantas histórias, quantas passagens e tudo que seu pensamento sabia eram as coincidências.


Um café, uma árvore, um livro, Não importa. Sempre haveria de vê-la antes da última vez.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Agonia de um escritor

Tremia sem muito controle sobre a calma, com as mãos cegas a procura da caixa de remédios, sempre preventivamente no mesmo local. Engoliu um e, ainda com as mãos trêmulas, o segundo, sem água, a seco, rapidamente, a procura de um alívio além da alma ferida. Não sabia ao certo qual reação a cada palavra mal entendida deveria ter. Pensou em silenciar. Não foi capaz. E rapidamente teceu algumas palavras à luz do que sentia instintivamente. O silêncio de réplica.

Pensou, quase que imediatamente: “foi escrito à lápis, propositalmente, para que fosse apagado quando conveniente”. O alívio não vinha. A calma não iria reinar mais, em nenhuma hipótese que não fosse o voltar no tempo e desfazer o que era feito, desdizer o que disse. Por que tinha ele que ser tão real, tão passional, se teria sido mais fácil ser superficial?

Via minuto a minuto a distância aumentar e o corroer por dentro. Dizer qualquer desculpa dessas já não cabia, não explicava, não resolvia e não aceitava. Não sabia, ainda, se assim seria, de fato, irremediavelmente. Mas sabia, com toda certeza, que não queria nenhum rascunho inacabado. Sim, rasgaria todas as páginas da obra não escrita, por mágoa, uma raiva incompreensível. Quantas noites de sono, quanto de alma fora consumido para essa escrita!

Lembrava de Pessoa, ele mesmo, o Fernando, e tinha raiva da citação guardada desde o sexto ano da escola. Não, nem tudo vale a pena, não importa o tamanho da alma, nem a grandeza do momento.

Não há perdão, nem desculpa, nem nenhuma situação que se sustente assim. Mas tentava a calma, em benefício próprio. Achava que teria uma história. Olhou e contemplou o vazio do coração. Jurou mantê-lo frio, gelado, rígido. Para sempre, nada de bom seria permanente.