E assim sucedeu-se, conforme as memórias me permitem relatar, de modo breve, impreciso, mas intenso, aquilo que os olhos da ilusão viram amedrontados e inquietos.
Uma pequena desavença pode se transformar em grandes tempestades, irremediáveis e de conseqüências imensuráveis. E, depois de iniciada, por motivo incerto, veio uma fuga desesperada, não de alguém específico, mas de um exército sanguinário e delinqüente. Do lugar, definem-se apenas os telhados e muros por onde a fuga se concretizara.
O cerco aumentava e era cada vez mais difícil escapar da morte. De repente, um cenário vermelho e dezenas de milhares de pessoas eram varridas da terra, como se atropeladas numa guerra campal. Sobressaia-se a cor vermelha, os gritos de horror e gente morta aos pedaços por todos os lados. Mas eu ainda podia escapar. Havia a consciência da habilidade em criar estratégias imediatas para se manter vivo, mas não era possível saber até quando, pois a cada vez que dobrava a esquina, novos assassinos me esperavam.
Era uma guerra perdida a qual nem mesmo queria lutar. Apenas me concentrava em ficar vivo. E as pessoas morriam quase que instantaneamente na luta, sobrando apenas o exército opressor. E eu ainda estava vivo. Não havia ônibus, aviões ou qualquer transporte que pudesse ser utilizado. Era como se as cidades, estados e regiões não tivessem fronteiras. Não havia a consciência de um mundo estrangeiro, portanto não há considerações relevantes sobre possíveis intervenções.
Mas o terror era indescritível. Alguns tentavam reagir, mas morriam, mesmo em grande número. Havia alguns alojamentos nos quais podia me esconder por pouco tempo, mas novos conflitos começavam ali. A morte vinha devastando tudo, como se fosse a água do oceano a lavar a terra. E eu sobrevivia.
Não havia vínculos afetivos, nem parentes, nem amigos. Apenas a fuga constante da morte. E predominava o pensamento: “como isso irá acabar?”. E acabou sem explicação, com os olhos abertos, olhando o teto.
domingo, 13 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Más intenções
Não imaginava que aqueles cabelos longos e negros causariam tanto estrago. Um prazer sádico de quem alcança o êxtase ferindo. Ou não. Mas perto de qualquer imoralidade, ele não evitaria encostar a boca naqueles lábios únicos, desejados e difamados. Sentia um breve frio na espinha, algo semelhante à sensação do vilão, mas longe de qualquer poder de inibição, as circunstâncias só o instigavam a ir além e sentir o gosto do pecado.
Estava condenado a lembrar-se do quão insensível e cruel poderia ser com o que ronda o seu cotidiano. Sabia disso. E, ainda assim, entregou-se ao desejo secreto e proibido de tê-la tão perto, tocar o corpo dela com o seu. Sentiu o mesmo prazer do vício ilícito, momentâneo e mortal, nem por isso hesitado.
Tão branca, tão clara. Olhava-a como a um troféu. Nenhum sentimento de culpa ou de apreço. Nada que atenuasse o peso do ato. Nada além do carnal, como deve ser para legitimar o crime. E provou cada estímulo provocado, desde o olhar, para que lembrasse muito bem do gosto, do cheiro e do toque.
O desastroso era o depois. O que não tem volta. A indiferença que os envolveriam, como se tudo fosse à toa. As marcas da indisciplina que não tem mais conserto. O falso olhar que o acompanharia para sempre e o sorriso maldoso que ela não mais tiraria do rosto.
Estava condenado a lembrar-se do quão insensível e cruel poderia ser com o que ronda o seu cotidiano. Sabia disso. E, ainda assim, entregou-se ao desejo secreto e proibido de tê-la tão perto, tocar o corpo dela com o seu. Sentiu o mesmo prazer do vício ilícito, momentâneo e mortal, nem por isso hesitado.
Tão branca, tão clara. Olhava-a como a um troféu. Nenhum sentimento de culpa ou de apreço. Nada que atenuasse o peso do ato. Nada além do carnal, como deve ser para legitimar o crime. E provou cada estímulo provocado, desde o olhar, para que lembrasse muito bem do gosto, do cheiro e do toque.
O desastroso era o depois. O que não tem volta. A indiferença que os envolveriam, como se tudo fosse à toa. As marcas da indisciplina que não tem mais conserto. O falso olhar que o acompanharia para sempre e o sorriso maldoso que ela não mais tiraria do rosto.
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Construindo o imaginário
domingo, 29 de novembro de 2009
Desencontrando
E acordou com a mesma cara amassada de todos os dias, os mesmos cravos na face que cotidianamente o incomodavam. Primeiro abriu os olhos, num ato de reflexo, como quem chega ao mundo de repente. Mal sabia que seria assim. Preguiçosamente se enrolou no lençol, como quem pede por mais cinco minutos de sono.
Dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto e tudo era diferente. Não encontrava sua velha escova de dentes, tampouco o desodorante de todas as manhãs. Quando, por fim, convenceu-se em aprontar-se com que achara, sentiu que a pasta de dente também era de outro sabor. Onde estariam seus perfumes? O susto não foi menor quando, ao voltar ao quarto, instintivamente pensou defronte ao armário: “Essas roupas não podem ser minhas. Mas servem. Estranho, muito estranho”.
Já vestido, até sentiu-se confortável no estilo urbano, desceu as escadas e encontrou a mesa posta do café. “Mamão papaia? Onde estão o pão e a manteiga?”. Mesmo assim, achou que frutas cairiam bem e tomou o café-da-manhã refinado, bem ao estilo de outono. O dia estava mesmo diferente, mas decidira seguir em frente.
E pelo resto das horas sentia-se privilegiado por provar um mundo avesso. Seus amigos eram os mesmos, mas eram outros. Seus amores eram surpreendentes. Percebeu que era desprendido de obrigações, ainda muito emotivo, mas extremamente apegado aos estímulos ligeiramente eróticos. Nem tudo haveria de mudar por completo então.
Estava se acostumando. O que era escuro tornara claro. As cores se invertiam. A lua e o sol. O mundo estava trocado de lugar. Os lugares por onde desapercebidamente caminhava naquela manhã eram inusitados e improváveis. O que de fato estava acontecendo, não entendia, mas optou por absorver a nova experiência como um recém-chegado ao novo mundo.
Divertia-se muito. Sentia a ausência de algumas coisas. Mas a sensação de vazio passava rápido. Parecia um sonho daqueles em que se sabe que está sonhando e que tudo acabará ao acordar. Mas não acordava. Nem ao menos dormia.
Sentiu o gosto do que nunca havia degustado. Viveu ao contrário por um dia. Tudo o que sempre desejara da vida. Saber como é e poder voltar. Um sonho impossível que se concretizara naquele instante. Uma magia inexplicável, da qual não se pode distrair para não correr o risco de deixar de sentir o efeito embriagador de experimentar.
E acordou com a mesma cara amassada, os mesmos cravos no rosto. E os mesmos desejos reprimidos de provar outras vidas.
Dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto e tudo era diferente. Não encontrava sua velha escova de dentes, tampouco o desodorante de todas as manhãs. Quando, por fim, convenceu-se em aprontar-se com que achara, sentiu que a pasta de dente também era de outro sabor. Onde estariam seus perfumes? O susto não foi menor quando, ao voltar ao quarto, instintivamente pensou defronte ao armário: “Essas roupas não podem ser minhas. Mas servem. Estranho, muito estranho”.
Já vestido, até sentiu-se confortável no estilo urbano, desceu as escadas e encontrou a mesa posta do café. “Mamão papaia? Onde estão o pão e a manteiga?”. Mesmo assim, achou que frutas cairiam bem e tomou o café-da-manhã refinado, bem ao estilo de outono. O dia estava mesmo diferente, mas decidira seguir em frente.
E pelo resto das horas sentia-se privilegiado por provar um mundo avesso. Seus amigos eram os mesmos, mas eram outros. Seus amores eram surpreendentes. Percebeu que era desprendido de obrigações, ainda muito emotivo, mas extremamente apegado aos estímulos ligeiramente eróticos. Nem tudo haveria de mudar por completo então.
Estava se acostumando. O que era escuro tornara claro. As cores se invertiam. A lua e o sol. O mundo estava trocado de lugar. Os lugares por onde desapercebidamente caminhava naquela manhã eram inusitados e improváveis. O que de fato estava acontecendo, não entendia, mas optou por absorver a nova experiência como um recém-chegado ao novo mundo.
Divertia-se muito. Sentia a ausência de algumas coisas. Mas a sensação de vazio passava rápido. Parecia um sonho daqueles em que se sabe que está sonhando e que tudo acabará ao acordar. Mas não acordava. Nem ao menos dormia.
Sentiu o gosto do que nunca havia degustado. Viveu ao contrário por um dia. Tudo o que sempre desejara da vida. Saber como é e poder voltar. Um sonho impossível que se concretizara naquele instante. Uma magia inexplicável, da qual não se pode distrair para não correr o risco de deixar de sentir o efeito embriagador de experimentar.
E acordou com a mesma cara amassada, os mesmos cravos no rosto. E os mesmos desejos reprimidos de provar outras vidas.
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Construindo o imaginário
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Universo abstrato
Eu quero respirar de verdade, mas a névoa que se instalou por aqui tem dificultado meus sentidos. Os caminhos me confundem (em todos os sentidos). E se as pernas doem a cada passada mais dura, deve ser porque ainda não me acostumei com isso, mas há de chegar o momento adequado para cada nuance relevante da vida.
Não represento segurança. Não é isso que quero ser. Na verdade, não percebi muito bem o que tenho a fazer com tanta coisa exposta, a olho nu. A paciência é mais curta do que o esperado. Agradar não é exatamente a melhor escolha (desde que não seja a si próprio).
O dia segue assim mesmo, cheio de parênteses, de coisas que atrapalham, corroem a personalidade, maldita seja a autocrítica. Meus pés deslizam sobre uma camada de gelo, doem, escorregam, derrubam minha percepção. Por que diabos enxergo esse futuro turvo toda vez que esboço levantar o rosto?
Não há obrigação em ser bom. Talvez pareça servilismo e é isso o que realmente me incomoda todos os dias. Manipulo palavras da mesma forma que pretendia com as pessoas, mas tenho maior domínio sobre as primeiras.
Às vezes, penso ser capaz de discorrer horas, incontáveis linhas incertas sobre fatos improváveis, mas isso não me basta. Quero transformar expectativas em sensações. Perversas, egoístas, eróticas (de preferência).
Não dou atenção à estética hoje. Sinto-me livre dessas limitações. E assim o serei. Por que a maldade tem sua própria estética. E por mais grotesco que lhe pareça essa indiferença, não importa. A arrogância há de caber em qualquer buraco que caia. É possível ser tudo o que se deseja no universo abstrato.
Não represento segurança. Não é isso que quero ser. Na verdade, não percebi muito bem o que tenho a fazer com tanta coisa exposta, a olho nu. A paciência é mais curta do que o esperado. Agradar não é exatamente a melhor escolha (desde que não seja a si próprio).
O dia segue assim mesmo, cheio de parênteses, de coisas que atrapalham, corroem a personalidade, maldita seja a autocrítica. Meus pés deslizam sobre uma camada de gelo, doem, escorregam, derrubam minha percepção. Por que diabos enxergo esse futuro turvo toda vez que esboço levantar o rosto?
Não há obrigação em ser bom. Talvez pareça servilismo e é isso o que realmente me incomoda todos os dias. Manipulo palavras da mesma forma que pretendia com as pessoas, mas tenho maior domínio sobre as primeiras.
Às vezes, penso ser capaz de discorrer horas, incontáveis linhas incertas sobre fatos improváveis, mas isso não me basta. Quero transformar expectativas em sensações. Perversas, egoístas, eróticas (de preferência).
Não dou atenção à estética hoje. Sinto-me livre dessas limitações. E assim o serei. Por que a maldade tem sua própria estética. E por mais grotesco que lhe pareça essa indiferença, não importa. A arrogância há de caber em qualquer buraco que caia. É possível ser tudo o que se deseja no universo abstrato.
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Falando sozinho
domingo, 22 de novembro de 2009
O dia e a poesia
Parece uma poesia triste. As bocas ameaçam tocar-se suavemente, chegam a encostar-se pelos cantos. Os olhos fechados denunciam o prazer do encontro. E sempre, sempre aquele sorriso.
Ele contempla os segundos com tanta cautela afetiva que o tempo parece maior. Ela comenta coisa ou outra, lembrando em segredo aquele amor de sufocados gemidos abafados incontroláveis. Ele lê as entrelinhas. Parte. Perde-se no caminho. Encontra-se então. E sorri para si, no dia que parecia poesia.
Ele contempla os segundos com tanta cautela afetiva que o tempo parece maior. Ela comenta coisa ou outra, lembrando em segredo aquele amor de sufocados gemidos abafados incontroláveis. Ele lê as entrelinhas. Parte. Perde-se no caminho. Encontra-se então. E sorri para si, no dia que parecia poesia.
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Construindo o imaginário
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Na ponta dos pés
Mandei um pensamento pelo vento. Algo que levasse a ti aquela sensação boa que a brisa traz, aquele frescor e bem estar que não se sabe falar, mas que quem sente, entende muito bem. Fechei os olhos como me ensinou, você realmente me abraçou. Mas com a mesma delicadeza que veio, o amor voou.
Iria contigo à Terra do Nunca pra reviver indefinidamente aquela mesma noite de luar. O que era físico agora é platônico, o desejo virou o avesso. Mas sempre que eu passo por perto, você sobe as escadas com aquele mesmo sorriso doce, como se o tempo pudesse parar de repente. Pra me abraçar. Pra me olhar.
Mas não acontece assim. Mesmo sem querer. E os corredores ecoarão as vozes.
Iria contigo à Terra do Nunca pra reviver indefinidamente aquela mesma noite de luar. O que era físico agora é platônico, o desejo virou o avesso. Mas sempre que eu passo por perto, você sobe as escadas com aquele mesmo sorriso doce, como se o tempo pudesse parar de repente. Pra me abraçar. Pra me olhar.
Mas não acontece assim. Mesmo sem querer. E os corredores ecoarão as vozes.
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Construindo o imaginário
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Olhando estrelas
Toma de volta as chaves do apartamento. Não desejo mais andar sobre o chão sujo dessa sala carregada de inveja e insatisfação. As paredes são pesadas de tristezas. O branco há muito não habita este espaço. E eu sou quase a única peça que restou mal colocada, esbarrando nos móveis velhos que nunca foram trocados.
Vou andar dez ou doze quarteirões sozinho. Não vou a pé, o carro me obriga ao comodismo, mas reflito como se caminhando fosse e choro, como se suando estivesse. Eu até posso apreciar esse quase sofrimento em que me encontro, mas não pretendo ficar assim por muito tempo. Pode ser que me acostume.
Penso nos números como valores. Desvalorizo tudo o que de nobre sinto. Não há verdade em toda essa delicadeza. A maldade é sempre muito mais sincera. Eu prefiro a honestidade da indiferença .
Devolva minha paz e meu dinheiro. Minha vida e meu destino. Vou embora a passos largos e sorrisos escassos.
Se ainda olharei as estrelas, não sei.
Vou andar dez ou doze quarteirões sozinho. Não vou a pé, o carro me obriga ao comodismo, mas reflito como se caminhando fosse e choro, como se suando estivesse. Eu até posso apreciar esse quase sofrimento em que me encontro, mas não pretendo ficar assim por muito tempo. Pode ser que me acostume.
Penso nos números como valores. Desvalorizo tudo o que de nobre sinto. Não há verdade em toda essa delicadeza. A maldade é sempre muito mais sincera. Eu prefiro a honestidade da indiferença .
Devolva minha paz e meu dinheiro. Minha vida e meu destino. Vou embora a passos largos e sorrisos escassos.
Se ainda olharei as estrelas, não sei.
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