quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Passar a limpo

E como seria a vida passada a limpo? Como seria apagar todos os borrões? É como limpar o que parecia bom e perfeito. Desapagar-se de comodidades e convenções. Trocar de roupa, trocar de pessoas. Mudar de ideia. Curto e rápido, como o próprio texto. E esperar o que há de vir.

Nunca existem certezas, nem mesmo do pensamento. Não há medida para magoar alguém. Não existe cumplicidade transparente em essência, além da própria conveniência. Quando se quer, demonstra-se, quando não, descarta-se. Tem sido assim injustamente.

No fundo, existe um só pensamento, uma só alma, uma só pessoa, uma só razão.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Em um ano novo

Quem o homem pensa que está enganando? Pensa que o tempo não passou. Pensa que pode repetir palavras sem notar. Pensa, tão abstratamente, que não pensa. Recua. Retoma e continua a pensar em nada, no imaginário, ilusório, sem qualquer destino ou senso crítico.

Quando ele fecha os olhos, o que de fato vem a mente? O céu turvo, talvez a poluição, deixe tudo tão diferente dos filmes em que o clima é limpo. As janelas de hoje são tão diferentes. São digitais, modernas, práticas e completamente sem brilho, sem vida. Momentos estáticos. Uma careta feliz, capaz de causar tamanha tristeza, mesmo que essa não seja a palavra certa.

Ele parece um velho lamentando. E talvez esteja mesmo tão longe dos seus 25 ou 26 anos (embora sabia o número exato). A felicidade na foto é tão nítida, tão bem simulada, que talvez até seja real. E transpareça para além dos anos, sem que tudo fique estranho, como com ele costuma ser.
Gostaria de afrouxar a gravata e preparar o whisky com alívio. Mas não está nem perto dessa época. E vê todos aqueles rostos deixados no passado, com o mesmo figurino. Tão diferente do seu chinelo havaianas e sua bermuda listrada. Não sabe mais porque tantos foram embora, para mundos tão distante. Não importa.

Ainda pensava no homem, aquele que pensa ter conhecido a moça da foto. Bem antes da foto, bem antes do cênico, distante dos palcos. Naquela época em que o homem era só um homem, ausente de si mesmo, de seus próprios medos, que só ela entendia. Talvez entendesse.


domingo, 28 de agosto de 2016

A liberdade ensaiada

A liberdade pode ser um conceito tão abstrato quanto a imaginação. A mente pode ser livre ou prisioneira, por escolha ou necessidade. Eu não sei como é ser você. Eu não sei como seus olhos veem o céu para além do grande concreto. Estamos em lados opostos. Esse é o lado B.

Um passo atrás do outro até o grande o dia. Não tão grande para mim, mas grandioso para você. A ruptura é grotesca e com medidas desiguais. Enquanto folheio uma a uma as páginas preenchidas, penso em cada pensamento para cada palavra extra registrada, cada contorno de letra destacado. Deixado pra trás, como todo o resto que foi dito, agora, completamente esquecido.

A marca está registrada, à caneta, à lápis, desenhada, detalhada, nada se desfaz. Uma bobagem, eu sei. Cada traço será esquecido rapidamente, coberto por outras coisas, até desaparecer. Mas há uma lembrança interna, uma falsa esperança de que você se desvie do óbvio. Haja o que houver, não haverá volta. Não aqui. No fundo, nós sabemos: o próximo estágio será cumprido.

Longe de controle, de qualquer contenção, os nervos serão diferentes, as atitudes desparecerão e todas aquelas reflexões, palavras positivas, tudo será apagado, como tantas folhas deixadas pra trás, como se nada mais existisse, além do horizonte baixo ao alcance dos olhos.


Por quanto tempo? Nunca saberei.