terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Em um ano novo

Quem o homem pensa que está enganando? Pensa que o tempo não passou. Pensa que pode repetir palavras sem notar. Pensa, tão abstratamente, que não pensa. Recua. Retoma e continua a pensar em nada, no imaginário, ilusório, sem qualquer destino ou senso crítico.

Quando ele fecha os olhos, o que de fato vem a mente? O céu turvo, talvez a poluição, deixe tudo tão diferente dos filmes em que o clima é limpo. As janelas de hoje são tão diferentes. São digitais, modernas, práticas e completamente sem brilho, sem vida. Momentos estáticos. Uma careta feliz, capaz de causar tamanha tristeza, mesmo que essa não seja a palavra certa.

Ele parece um velho lamentando. E talvez esteja mesmo tão longe dos seus 25 ou 26 anos (embora sabia o número exato). A felicidade na foto é tão nítida, tão bem simulada, que talvez até seja real. E transpareça para além dos anos, sem que tudo fique estranho, como com ele costuma ser.
Gostaria de afrouxar a gravata e preparar o whisky com alívio. Mas não está nem perto dessa época. E vê todos aqueles rostos deixados no passado, com o mesmo figurino. Tão diferente do seu chinelo havaianas e sua bermuda listrada. Não sabe mais porque tantos foram embora, para mundos tão distante. Não importa.

Ainda pensava no homem, aquele que pensa ter conhecido a moça da foto. Bem antes da foto, bem antes do cênico, distante dos palcos. Naquela época em que o homem era só um homem, ausente de si mesmo, de seus próprios medos, que só ela entendia. Talvez entendesse.


domingo, 28 de agosto de 2016

A liberdade ensaiada

A liberdade pode ser um conceito tão abstrato quanto a imaginação. A mente pode ser livre ou prisioneira, por escolha ou necessidade. Eu não sei como é ser você. Eu não sei como seus olhos veem o céu para além do grande concreto. Estamos em lados opostos. Esse é o lado B.

Um passo atrás do outro até o grande o dia. Não tão grande para mim, mas grandioso para você. A ruptura é grotesca e com medidas desiguais. Enquanto folheio uma a uma as páginas preenchidas, penso em cada pensamento para cada palavra extra registrada, cada contorno de letra destacado. Deixado pra trás, como todo o resto que foi dito, agora, completamente esquecido.

A marca está registrada, à caneta, à lápis, desenhada, detalhada, nada se desfaz. Uma bobagem, eu sei. Cada traço será esquecido rapidamente, coberto por outras coisas, até desaparecer. Mas há uma lembrança interna, uma falsa esperança de que você se desvie do óbvio. Haja o que houver, não haverá volta. Não aqui. No fundo, nós sabemos: o próximo estágio será cumprido.

Longe de controle, de qualquer contenção, os nervos serão diferentes, as atitudes desparecerão e todas aquelas reflexões, palavras positivas, tudo será apagado, como tantas folhas deixadas pra trás, como se nada mais existisse, além do horizonte baixo ao alcance dos olhos.


Por quanto tempo? Nunca saberei.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Antes da última vez

José, quando olhou no espelho, percebeu que perdera completamente a razão, em cada um dos seus passos tortos. Acariciou lentamente a braba lisa, fina, como quem estivesse acordando. Não haveria qualquer razão para fazer aquilo, senão fugir de tamanha agonia em seu coração. Já não pensava com a mente e isso era extremamente perturbador.

Pensou em escrever mais um texto, pseudoliterário, e foi então que percebeu que ninguém leu os últimos. Estava falando consigo mesmo, o tempo todo. Um monte de papéis velhos sem qualquer importância. Pensou em apagar todas as histórias, destruir todas as metáforas. Não seria a primeira vez que lhe passara na mente essa ideia extrema. Afinal, como seria zerar a vida?

Contemplou a flor da sala, tão bela naquela noite de pouca lua, em que luz se afunilava em reflexo na mesa como se sugasse toda a sua alma ao acaso. Olhou ao redor para ter certeza de tudo que tinha. Não ousava dizer, pois a dívida com Deus era grande demais para questioná-lo de qualquer coisa. Mas sentia-se só, em alguma instância de sua existência, de repente tão medíocre.

Lembrou de tantos afazeres incompletos, mas dali não se mexeu por motivo algum, que não fossem os próprios dedos a registrar. Ouvia músicas tristes, pois assim gostaria de estar naquele momento. Lamentava que tão curta fosse a noite para tanta intensidade de pensamento. Mas que porcaria de ausência é essa que sente a ponto de tropeçar nas letras?

Quando foi que ela o olhara daquele jeito pela última vez? Só poderia ser isso. E, sabia, em seu mais íntimo medo que gostaria de não pensar. Não ser. Não sentir. Não querer. Um pensamento fortuito lhe invade: “mas por que ela me acha um ser bom”? Sentia que não merceia, porque a tristeza causava exatamente essa sensação de pequenez em seu peito.

Correu os olhos pela tela limpa, sem qualquer sinal de que havia voltado. Sentiu, de repente, a noite mais longa. Não importa quanto sono teria na manhã seguinte e sabia que seria muito. Alucinações perturbadoras sobre a mesa vazia, o garçom de costas, o bar apagado. O silêncio era tão absoluto que a música parecia tocar em seu corpo, como parte de si.

Sabia que era um covarde. A palavra é forte, jamais ousaria dizer, mas no fundo sabia. Contentava-se com tamanha artimanha a ponto de inverter os valores. Pensava em tornar-se mau. Imaginou em como alimentar a maldade em seu coração, com a esperança falsa de que os maus sofrem menos.

Trombou sua vista com a frase imaginária, o velho clichê de toda sua vida: Você acredita no amor? Trocou respostas com sua mente, imaginando as duas únicas possibilidades, quando um ápice de percepção aparece na mente como um sábio de barba branca dizendo: “Acredito tanto que se multiplica o sofrimento por não saber”.
Olhou ainda mais triste para os móveis tristes, outrora tão alegres. Quantas histórias, quantas passagens e tudo que seu pensamento sabia eram as coincidências.


Um café, uma árvore, um livro, Não importa. Sempre haveria de vê-la antes da última vez.