quarta-feira, 7 de março de 2018

Sangue

Ele queria sangue, puro. Percorreu estradas desertas, desconhecidas, em busca de um vínculo real. Queria sentir de novo a mesma ligação. Não acreditava em ciclos, mas sentia-se imerso em um redemoinho, como um prenúncio de finais inéditos, inesperados, já concluídos, sem nem perceber. Não havia mais fôlego. Mas era bom demais, um guerreiro nato, para entregar-se sem nadar, agora, para águas tranquilas. Rios calmos, quietos, o preferido dos pescadores, mas que traziam em si uma tristeza tão profunda quando a solidão do homem com redes.

Assustava quando o telefone tocava. Era como despertar de um sonho ruim, mas que não acaba ao levantar. E nessa estrada conheceu pessoas íntegras, pessoas lindas, lindas faces, lindos discursos. Mas ainda não sentia aquela mesma “coisa”, intangível, indescritível. Contava as pessoas e essas cabiam nos dedos de uma só mão. Mas acreditava nessa nova cidade, onde chegara, até com certa tranquilidade.

Nada é capaz de destruir uma história. Não importe o quão contrário amor possa haver, nem mesmo o quanto a alma possa esquecer. Nada apaga uma história de sua essência cósmica. E seria possível viver assim? Não sabia, estava aprendendo. Manchado de sangue.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Perdas. Ou ganhos. Ambos


Ele andava na direção errada. Não contrária, mas fora do rumo. Mas, também, a vista o confundia, por sorte, não o suficiente para que não mais percebesse. Quando parou de olhar o horizonte e observou a árvore, o vale, a mata, percebeu que o caminho em linha reta estava errado. Teria que dar a volta.

E, num momento mágico, relembrou cada palavra que já ouvira e avaliou uma a uma, a loucura momentânea, o custo de cada pensamento e a inverdade das trilhas sonoras. Não estava ali, como de fato sempre acreditara estar. E, mesmo quando estivesse, não era inteiro. Era metade, incompleto.

E as músicas, agora, diziam outra coisa. Seus olhos enxergavam de novo, sem sombras, nem dúvidas, mesmo quando havia certeza da incerteza. Alto custo, valeria a pena, certamente, ao menos em algum aspecto. Se tivessem dito antes, ele não teria ouvido. Tem por hábito só escutar o que quer.

Parou de importar. Não importa o que fizesse, sempre seria o pior. E não nascera pra ser isso, não acreditava, nem aceitava. Parou de perder seu tempo emocional. Seguia na direção. Seguia em frente, mesmo que, por vezes, olhasse pra trás. Não importa, não havia nada.

domingo, 29 de outubro de 2017

A metade

Saber que foi tudo, sempre, um grande engano, até o mais recente pensamento, é tranquilizador, em alguma parte disso tudo. Não se deve cultivar sentimentos ruins ou buscar explicações técnicas, mas, simplesmente voltar pra casa, pros pensamentos tão solitários que pareciam ter sido entendidos enfim. Não foram.

E está tudo bem que não haja compreensão. Nunca houve, de fato. O mundo é mesmo um cavaleiro solitário, que encontra paz onde não de percebe o tempo todo. No fim, é como se tudo ficasse pela metade.