Eu me dou ao direito de ser louco, às vezes. Mas não sempre. Somente quando eu vejo tudo bem pequeno: as dores, os amores, os desejos e o conformismo. É o ponto que atingi. Não tenho mais aquela velha prática. Não, não é questão de idade. Ao menos, não dessa vez.
Era mais fácil quando a coca-cola de vidro compensava todas as insatisfações. Dobro os joelhos e rezo, por um alívio interminável. Querer ser o que se foi, num instante tão banal, que nem se pode dar conta: é isso o que nos reserva em algum ponto da vida.
As dores, agora, são físicas, já em decorrência da instabilidade emocional. É o ponto trágico da percepção. É quando desejo não tê-la. É a inveja que sinto do trabalhador que no fim da tarde glorifica aos céus por mais um dia: “Graças a Deus, a segunda-feira já foi”. E a minha ainda nem começou. Por que a cada minuto que passa, tenho uma nova segunda-feira de incertezas.
E naqueles breves momentos em que tudo volta a ser normal, é que eu entendo a felicidade plena. Mas dura pouco. Sempre. E começa tudo outra vez.
Renato Menezes
Verbalizando o abstrato
terça-feira, 22 de maio de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Sobre o sentido dos atos
E se a minha visão ofuscasse? Sim, isso iria acontecer. E se a mente girasse? Provavelmente iria também. O assustador é não saber o que pensar, no momento exato em que minha vista formasse duas telas, como nas TVs modernas. Porque certamente eu deveria pensar além do que é lógico, aquém dos romances literários. E sim, qualquer acontecimento ínfimo transformaria tudo perigosamente, no sentido mais trágico do termo, nada excitante, nesse contexto.
É pouco provável que tudo se explique. Como já não se explicou há alguns anos. Cenas equivalentes, papéis invertidos. É evidente que a verdade seria explicativa, mas há de se ter coragem de dizer o que se pensa, o que sente – especialmente diante do silêncio de sempre. Afinal de contas, onde isso poderá chegar?
Não manifestar a verdade, crua como ela deveria ser sempre, não significa escolher a mentira. Sabe-se que a omissão não é lá essas coisas também. A ausência de palavras é a única coisa que pode significar tudo. E nada. Escolher um discurso qualquer limita as margens interpretativas (ou as deturpam completamente).
Então, por que não cumprir todos os rituais? Não há respostas concretas. Mas tem algo a ver com fuga e medo. De verdade.
É pouco provável que tudo se explique. Como já não se explicou há alguns anos. Cenas equivalentes, papéis invertidos. É evidente que a verdade seria explicativa, mas há de se ter coragem de dizer o que se pensa, o que sente – especialmente diante do silêncio de sempre. Afinal de contas, onde isso poderá chegar?
Não manifestar a verdade, crua como ela deveria ser sempre, não significa escolher a mentira. Sabe-se que a omissão não é lá essas coisas também. A ausência de palavras é a única coisa que pode significar tudo. E nada. Escolher um discurso qualquer limita as margens interpretativas (ou as deturpam completamente).
Então, por que não cumprir todos os rituais? Não há respostas concretas. Mas tem algo a ver com fuga e medo. De verdade.
domingo, 1 de abril de 2012
A realidade
Eu tive dias cinzas. Noites turvas, como a água escura de um pequeno aquário. Mergulhei num universo desconhecido. Vi as coisas de uma perspectiva jamais percebida. Foi a primeira vez que a sensibilidade trouxe medo. Um pavor que consumia os sentidos. Quase um caminho sem volta.
Vi meus olhos distantes. Evitei falar. Tentei não sentir. Mas o concreto não possui controle algum sobre o abstrato. E por que simplesmente não vivo todos os dias como se fosse o mesmo?
A mesma rotina, os mesmos sonhos mesquinhos, a mesma insensatez clichê. Não era mais questão de escolha. “Sinto muito, meu caro, aquele homem de quarta-feira não será mais o mesmo na quinta”, sentenciou o pensador.
Dia após dia, um teste de fé. E passei. Acreditei, mesmo quando não parecia ter fim. Os dias não voltam atrás. Mesmo. Mas as coisas voltam a ter, de novo, a mesma dimensão. A realidade. Tão confortável quanto antes.
Eu não forço as lembranças. Para tentar me esquecer como foi.
Vi meus olhos distantes. Evitei falar. Tentei não sentir. Mas o concreto não possui controle algum sobre o abstrato. E por que simplesmente não vivo todos os dias como se fosse o mesmo?
A mesma rotina, os mesmos sonhos mesquinhos, a mesma insensatez clichê. Não era mais questão de escolha. “Sinto muito, meu caro, aquele homem de quarta-feira não será mais o mesmo na quinta”, sentenciou o pensador.
Dia após dia, um teste de fé. E passei. Acreditei, mesmo quando não parecia ter fim. Os dias não voltam atrás. Mesmo. Mas as coisas voltam a ter, de novo, a mesma dimensão. A realidade. Tão confortável quanto antes.
Eu não forço as lembranças. Para tentar me esquecer como foi.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Como antigamente
Ele acordou com aquela inquietação que há tempos não sentia. O tato dos pés com o chão era diferente de ontem. E a sensação de inquietude se prolongaria pelo dia todo. De relance, viu de novo o papel branco na mente, como se o velho hábito ressurgisse do nada. Mas não deu importância na hora. E partiu para a mesma rotina, como se tudo estivesse normal.
Não era ingênuo, sabia que coincidências não existem. Talvez fora efeito da vista inesperada naqueles mesmos corredores, que há tanto conhecia. Mas que nunca mais passara com a mesma intenção. E o acaso tem mesmo dessas coisas.
Quando percebeu, já riscava o papel como antes. Ouvia as mesmas coisas que antes. E tinha as mesmas impressões que antes. Mas ainda prefere a metáfora. O jogo de palavras que diz sem dizer. Gosta de observar e de brincar com isso. Mesmo quando não deve.
E viu todas as formas de novo. Lembrou-se do que era. Juventude que se dispersa pelo tempo, o tempo todo. Sentiu, então, o mesmo cheiro. Como antigamente.
Não era ingênuo, sabia que coincidências não existem. Talvez fora efeito da vista inesperada naqueles mesmos corredores, que há tanto conhecia. Mas que nunca mais passara com a mesma intenção. E o acaso tem mesmo dessas coisas.
Quando percebeu, já riscava o papel como antes. Ouvia as mesmas coisas que antes. E tinha as mesmas impressões que antes. Mas ainda prefere a metáfora. O jogo de palavras que diz sem dizer. Gosta de observar e de brincar com isso. Mesmo quando não deve.
E viu todas as formas de novo. Lembrou-se do que era. Juventude que se dispersa pelo tempo, o tempo todo. Sentiu, então, o mesmo cheiro. Como antigamente.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Manipulando
Enquanto eu conto as xícaras de café, empilhadas, com aquele restinho que não bebo, admiro o caos e ignoro o cenário. Controlo emoções tão cuidadosamente, que transmito uma expressão apática, mesmo diante dessa gente pequena. Não tenho paciência para a mesquinhez. Nem para combatê-la.
Minha bolha de realidade nunca esteve tão resistente e presente. Eu gosto de ver o mundo como vejo, mesmo sabendo a verdade. Não gosto mais de analisar pessoas. Sempre me obriga a afastar-me. Vejo o jardim rústico que criei pra mim. É bom ser egoísta, às vezes.
Arrasto-me às missões, como os ponteiros das horas, minutos e segundos num relógio antigo. Nunca o tempo passou tão devagar. Não é ansiedade, nem angústia. É a indiferença às coisas menores. Às pessoas menores.
E perto de tudo isso, o mundo se empilha a minha frente. Sem forças. Mas gosto de acreditar no poder de reação. Espero até que chegue.
Minha bolha de realidade nunca esteve tão resistente e presente. Eu gosto de ver o mundo como vejo, mesmo sabendo a verdade. Não gosto mais de analisar pessoas. Sempre me obriga a afastar-me. Vejo o jardim rústico que criei pra mim. É bom ser egoísta, às vezes.
Arrasto-me às missões, como os ponteiros das horas, minutos e segundos num relógio antigo. Nunca o tempo passou tão devagar. Não é ansiedade, nem angústia. É a indiferença às coisas menores. Às pessoas menores.
E perto de tudo isso, o mundo se empilha a minha frente. Sem forças. Mas gosto de acreditar no poder de reação. Espero até que chegue.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Desapego
Quando eu achei que os meses passariam rápido, eles se arrastam lentamente em lamentação. Aqueles detalhes que ficam esquecidos, porém presentes, todos os dias, agora, fazem diferença pela ausência. Desapego. Ainda me lembro do olhar refletido no vidro e um longo planejamento que nunca se concretizou.
Eu me recordo dos primeiros dias. Daquela calma contemplação. Das espécies. E do cotidiano que se resumia em todos aqueles cuidados. O orgulho estético. A admiração. A exposição. E claro, a exibição. Quase uma competição.
É um longo processo de renovação. Substituição. Outras coisas já foram desfeitas. E eu juro que achei que seria mais fácil. São passos lentos de uma caminhada exaustiva. Difícil explicar cada peculiaridade das peças.
Um último brinde. Ao que fica. Ao que se foi. A tudo o que um dia foi verdade.
Um simbólico adeus.
Eu me recordo dos primeiros dias. Daquela calma contemplação. Das espécies. E do cotidiano que se resumia em todos aqueles cuidados. O orgulho estético. A admiração. A exposição. E claro, a exibição. Quase uma competição.
É um longo processo de renovação. Substituição. Outras coisas já foram desfeitas. E eu juro que achei que seria mais fácil. São passos lentos de uma caminhada exaustiva. Difícil explicar cada peculiaridade das peças.
Um último brinde. Ao que fica. Ao que se foi. A tudo o que um dia foi verdade.
Um simbólico adeus.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Lembranças dilaceradas
Cada fina tira de papel, eu as olhei caindo, lentamente, uma a uma, até que elas se soltassem umas das outras, perdendo sua forma e imagem. Não foram os sonhos que se foram. Por que eu estava acordado. Frio, como a ocasião exige.
E agora? Nada mudou. Nada aconteceu. Se o mundo não precisa disso, por que eu precisaria? Mas a imagem perde o foco, some, se apaga, lentamente. Até não existir lembrança.
O que não é verdade, não precisa existir. Há coisas mais importantes. Nos dois lados do mundo. Sempre.
E agora? Nada mudou. Nada aconteceu. Se o mundo não precisa disso, por que eu precisaria? Mas a imagem perde o foco, some, se apaga, lentamente. Até não existir lembrança.
O que não é verdade, não precisa existir. Há coisas mais importantes. Nos dois lados do mundo. Sempre.
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