domingo, 19 de março de 2017

Lego

Com seis peças de Lego é possível fazer centenas de milhares de combinações. Mas não sabemos todas, embora todos já unimos os famosos tijolos plásticos dinamarqueses. Quando eu era criança, olhava as construções e achava extremamente difícil fazer aquilo. Não há receita nem manual para a criatividade. E é esse o maior desafio da vida.

Tantos encaixes tão perfeitos estão desgastados e não se unem mais. Não adianta insistir. As peças ficam obsoletas, frias e frágeis. Não se fixam mais. Não basta alternar as combinações. É necessário trazer peças novas, mudar o projeto, desviar os rumos, criar novos horizontes.

Eu nunca tive um Lego, de fato. Talvez esse seja o problema. Eu nunca me empolguei com isso. Conexões perdidas, por mais clássicas que parecessem ser. Assim como Lego.

sábado, 4 de março de 2017

Gramática

Não há ponto final, não é mesmo? Por mais definido que tudo pareça ser, sempre há uma sílaba mal colocada. Por mais bem escrito que seja, por mais subjetivo que pareça, não haverá qualquer explicação plausível que mapeie o sentimento alheio. O que há na mente, agora, além de medo?

É incrível como criamos mecanismos mentais e acreditamos neles, mesmo quando fingimos não acreditar, confundimos os dois lados. Não há uma única verdade no mundo. Tudo o que é ruim tem que ser apagado da imagem, da memória e das ações.

Queremos que nada disso exista. E, de fato, talvez, de alguma forma seja possível.
Paralelamente, um mundo doce e tenro existe, em hipótese e em essência. Mas a realidade é um universo tão distinto. Há turbulência no voo. Estamos dedetizando o jardim.

As palavras não estão bem encaixadas dessa vez. Talvez porque os signos, por hora, sejam um aglomerado de imagens marcantes, sensações indizíveis e verbos inconjugáveis. Formam-se cenas de todo o cotidiano. Um caminho estreito, intenso. Um caminho seguro, único e belo.

Por que é que a mente não se aquieta? Porque, em algum lugar, falta um vírgula.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Água

Há sempre uma peça que não se encaixa. Em qualquer circunstância, existe uma barreira invisível que não pode ser rompida. Por mais que se tente, não há esforço suficiente. Não se trata de desistir. Ninguém nunca de fato desiste de algo que se quer. Às vezes passamos a querer outras coisas.

As palmeiras refletem no azul e formam uma figura bem composta, com aquela moldura que nivela o universo e limita o horizonte. Mas nem os ventos a movem. Suas raízes são fortes, mesmo quando pareciam flexíveis, era apenas imaginação.  É como se a voz do planeta dissesse "calma, você não está enxergando porque não há o que se ver".

É um vazio sem fim que não é preenchido por coisas que não competem. E difícil estar próximo, ser visto, fazer falta, ser real, quando se contempla um mundo tão imaginàrio. O que é de fato real? As palavras não param de nascer, quando nem deveriam ter forma.  Mas a percepção  é infinita (eu já havia me esquecido disso). E simplificar as coisas já não é mais atraente.

Existem problemas maiores contextos mais amplos, que deveriam ser inexistentes. Às vezes é preciso uma pedra no calcanhar para avaliarmos melhor nossos sapatos. Mas quando se foge do real imediato, tudo parece ser tão fantástico. E é mesmo uma fantasia. Essa modéstia e esse pudor incomodam. A intensidade, ás vezes, pede extremos.

Foi uma sensação que não tem nome. Como quando se ofende alguém sem motivo. Quase uma agressão. E essa percepção torna tudo tão  incorrigívelmente triste.  Não se pode forçar a presença além do que se cabe no coração.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Passar a limpo

E como seria a vida passada a limpo? Como seria apagar todos os borrões? É como limpar o que parecia bom e perfeito. Desapagar-se de comodidades e convenções. Trocar de roupa, trocar de pessoas. Mudar de ideia. Curto e rápido, como o próprio texto. E esperar o que há de vir.

Nunca existem certezas, nem mesmo do pensamento. Não há medida para magoar alguém. Não existe cumplicidade transparente em essência, além da própria conveniência. Quando se quer, demonstra-se, quando não, descarta-se. Tem sido assim injustamente.

No fundo, existe um só pensamento, uma só alma, uma só pessoa, uma só razão.