domingo, 29 de outubro de 2017

A metade

Saber que foi tudo, sempre, um grande engano, até o mais recente pensamento, é tranquilizador, em alguma parte disso tudo. Não se deve cultivar sentimentos ruins ou buscar explicações técnicas, mas, simplesmente voltar pra casa, pros pensamentos tão solitários que pareciam ter sido entendidos enfim. Não foram.

E está tudo bem que não haja compreensão. Nunca houve, de fato. O mundo é mesmo um cavaleiro solitário, que encontra paz onde não de percebe o tempo todo. No fim, é como se tudo ficasse pela metade.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Não Leia

Não Leia. Respeite o pouco respeito que lhe sobra pelo título. Pare agora, nessa última palavra. Fim.

Nada existe ou existiu de concreto no mundo dos cegos (agora eu sei). Eu sei que posso dizer livremente, não haverá qualquer censura real. Você é uma ilusão irreal, uma falsa impressão. Não há nada de bom nisso, nunca houve. Toda maldade projetada está embutida em si.

O egoísmo traça caminhos traiçoeiros. Faz com que a vida se esconda nessa cortina de fantasia, de felicidade ensaiada. E retorna palavras vazias, tão vazias quanto a alma pequena e inquieta.

Não há motivos para nenhuma hostilidade, sei disso com todo meu ser. Não há ódio, nem rancor. Não há vida. Não há texto, nem referência. Não há presença, nem leitura. Não há nada.

domingo, 28 de maio de 2017

O convívio

Acordou sem propósito algum, como em todos os dias. E como em todas as manhãs, partiu para o mesmo ritual mesquinho de higiene e lazer, como se o mundo fosse só aquilo que seus olhos viam e que sua mente seriamente limitada permitia enxergar, com os olhos da alma definhada em estranhezas indescritíveis e formas de pensamento desprezível mesquinho.

Ainda pela manhã, sabia exatamente o que faria o dia todo, aquele cotidiano fútil que seu cérebro insistia em acreditar ser grande e completo, justificável, por tudo aquilo que seu pequeno universo conhecia. Mas isso não é o bastante para a personalidade controladora e falsamente manipuladora, pela insegurança e pela necessidade de se confirmar.

Mas, ainda assim, não era mau. Tinha, no fundo, um bom coração. E então buscava suas ações condizentes com isso, desde que coincidentes com seus ideais. E todos se esforçavam para que o foco fosse exatamente no que havia de bom, de útil, de prazeroso e valioso naquele ser peculiar.

Quando tudo parou de funcionar, num dia de semana qualquer, como se nunca pudesse contar o tempo, ficou irritadamente surpreso. Procurou pela casa vazia e não entendia o porque não havia ninguém. Apenas um bilhete, com as últimas palavras, de alguma mensagem falando algo sobre cansaço, impaciência, intolerância e adeus.

Tentou o celular, pois as máquinas não pensam; simplesmente obedecem. Funcionou, segundo a sua vontade, porém, nenhum número atendia, nenhuma voz do outro lado, nenhum contato. Nada. Já na rua, nenhum rosto amigável, nenhum tipo de saudação. Todas as pessoas desapareciam magicamente, assim que seu olhar as cruzava. Nada novamente.

A TV ligava, saia um som distante, como se todos dissessem ofensas aos seus ouvidos. Nada o satisfazia, nenhum contato humano, já há 11 dias. No mesmo espaço, com as mesmas roupas, a mesma rotina. No 12o dia o silêncio era demais e até os pensamentos não falavam com ele. Estava enlouquecendo e provando o veneno que não acreditava existir. Era irreal. Pensou se não estaria sonhando, esperando que acabasse logo. No dia número 13 percebeu que não era um sonho, porque nem sonhos o permitiam visitar durante a noite.

Quando o dia 14 amanheceu, a tortura era insuportável. E, de repente, tudo voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. E tudo em que ele pensava era em tudo o que aconteceu.


Não era o fim.