domingo, 25 de outubro de 2009

Só pra provocar

Pensava que tivesse ido embora. De vez, pra sempre. Mas insiste em voltar com aquele sorriso solto, aquela coisa de ser timidamente sexy. Não que quisesse reviver, mas só sentir o gostinho de provocar nele aquela sensação de descontrole. Apenas mais um truque de quem finge não ser de propósito.

Os carros seriam iguais, se ainda o tivesse. Uma espécie de sintonia cotidiana. Sabe aquelas coincidências superficiais que juntas formam o contexto? É assim que casualmente eles se encontram, nas coisas simples, situações normais que marcam uma vida. Uma espécie de filme de amor.

A manhã está quente, de um jeito pouco romântico. Mas ele volta àquela mesma estrada, lembrando, agora consciente, de cada nuance de todo o prazer. Observa pela janela o homem no seu dia-a-dia. E reflete sobre o tamanho do mundo. Está tão perto e ela nem imagina.

Os detalhes os separam nesse dia. Tantos pontos em comum, do homem que poderia tê-lo visto e reconhecido, ao ponto onde sempre estaciona na despedida, os unem sem que ela saiba. Não fazem do sentimento segredo. Mas partem do desejo para o abstrato, calando a boca, escondendo os beijos, brincando de não querer.

Na sala

Parece que todos foram embora. Manifesta-se a solidão, sem muito alarde. Quem aparece, está apenas pela metade. Ao sair da sala, não será mais dele. É claro que as horas passam mais rápidas enquanto sente o cheiro dela, mesmo que sorrateiramente, num beijo roubado, molhado e rápido.

De novo ela finge querer. Faz aquela cara que só ele entende. Meche os olhos daquele mesmo jeitinho. Faz tipo, finge que não quer, mas se entrega pelo olhar, logo em seguida. Acaricia os cabelos dele como antigamente, segurando a nuca e repousando a mão distraidamente sobre a cabeça.

Ele não resiste, fecha os olhos, pede pra ela parar. Mas não quer que ela pare. Mais uma hora passou (nem notou). Coloca as mãos na cintura dela, com a mesma habilidade que fazia estremecer em seus braços. Aproxima-se, entrega-se, pede um beijo. Implora, deseja, chora. Lamenta.

Arrepende-se de lembrar. O amor o acompanha. Fazem juras falsas. Não são um do outro. Não tem porta-retratos no quarto. Não guardam histórias engraçadas. Nada que exigiria um amor de verdade. Mas se amam. O desejo é conseqüência. Ou vice-versa. Não importa. Não há nada que o tempo não cure.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Retrovisor

Cabelos longos e negros, em perfeito contraste com a branca pele e um olhar sacana que enfeitiça. Ela sabe seduzi-lo. Desperta desejo e gosta que seja assim. A fala é lenta, mansa, manhosa, quase infantil. Ele ouve, mas não escuta. Pouco importa o que diz. Fica entregue ao som daquela voz doce, ao pé do ouvido, pedindo mil coisas.

Anos depois, ele encosta o queixo na escrivaninha, relembra tudo com saudade. Os primeiros beijos desencontrados. O primeiro olhar penetrante. A primeira mágica noite. Sabe que está distante, em outras histórias que ele não quis viver. Mas nada tira dele o incômodo de lembrar, sentir de novo cada toque íntimo.

Recorda-se do último encontro. As conversas inúteis, pouco interessantes. As muitas mentiras que disse, as mil histórias inventadas. Conteúdo programado. Pretexto para um canto escuro, um quarto com luz apagada, onde a menina acorda mulher, no timbre da voz, no ato de dominar, fingindo ser dominada.

Deseja-a, tão ávido quanto o apreço de uns pelos vícios. Olha ao redor e vê de novo o mesmo sorriso atrevido, aquele jeito sapeca inconfundível. Ela desfila de mãos dadas, olha de relance para trás, de um jeito de que sem lembra de tudo. E segue.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Possibilidade

Ele: Você me conhece...

Ela: Muitíssimo bem
E disse isso com um sorriso sarcástico, que o deixa em dúvidas se isso é bom ou ruim.

Ele: Então você sabe.
Afirmou com tom seguro, de modo que ela só confirmasse se realmente soubesse.

Ela: Sei.
Disse sem muitas explicações, de novo, deixando-o complemente em dúvidas sobre o que ela sabe, quer ou permitirá.
É uma possibilidade.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Navegando

Ele insiste. Não gosta da negativa. Mas percebe o fracasso. Sente náusea. Formigamento no corpo. O rosto queima. Raiva de si mesmo. Quanta prepotência colocar-lo em jogo. Talvez seja melhor sair sem avisar mesmo. Os telefones mudam. As pessoas aparecem e somem. Se o vinho não era tão nobre, por que ele ainda segura a taça?

Ela não tem charme. Não usa saltos. Perfumes fracos. Conversas soltas. Mas domina a sua natureza feminina. Explora seu manequim, mesmo não se orgulhando. Não demonstra constrangimento, ao contrário, esbanja desprendimento. Por isso, ele não resiste. Não pede, mas olha, encara, deseja. Descarta. Convida. E parte, sozinho.

Ele trilha caminhos. Outros copos, outras moças. Mente, desmente, grita a verdade. Fala macio ao pé do ouvido. Repete frases decoradas. Cria outros mundos, personagens. Senta do outro lado, o convite foi dela – uma primeira visita, coisa básica para esquecer outras faces. Dialoga, se arrepende. É tarde, pede água, mais nada. Conta histórias mortas, deseja não estar ali, ensaia métodos para encerrar a entrevista. Espera aproximar-se dos lábios.

Viaja para outros lugares. Anda por ruas largas. Avenidas diferentes. Ele vive cada instante. Abandona os pensamentos. Começa de novo. Deixa a barba, livra-se dos óculos. Roupas novas, perfumes especiais, sempre. Ele, agora, é outro mundo. Bairros vazios, celular desligado. Nova identidade, mas a velha impaciência persiste.

Dias de calmaria. Apenas um descanso para a mente. Impossível esquecer de verdade. A carga emocional atrapalha, mas não impede. Tenta viver todos os dias. No bar com os amigos, no café solitário, na casa das moças.

Ele volta pra casa. Apenas mais um dia difícil. A cama o espera para compensá-lo. A noite será o descanso do corpo. E todas as fantasias tornar-se-ão sonhos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

727

Ele pensa nos números. Números que invadem o imaginário. O endereço, a casa, o horário, a repetição. Setecentos e vinte e sete segundos olhando para os mesmos olhos verdes, a 45 graus de sua posição. Anda dois ou três passos, se aproxima. Ganha um sorriso. Confiança. Desconfia. Pensa. Hesita aproximar-se. Perde de vista. Desqualifica todas as possibilidades. Novo sorriso confunde de novo seu imaginário. “Será?”

Não pode ser. Não deve ser. Não faz sentido. Ou faz? Quantas possibilidades para uma única oportunidade. Bebe um gole para encorajar-se. O gosto é amargo. Parece um sinal. Deve ser um sinal (sempre o mesmo negativismo – um caso clínico). Ele esbanja descontração. Tenta parecer solto, seguro. As mãos quase tremem segurando o copo, mas não se percebe, ainda está razoavelmente escuro.

Parte para o olhar direto, sem disfarce (isso sempre funciona. Será?). Há reciprocidade, mas tão sutil que não o encoraja para a abordagem. Fita-a sistematicamente. Ela aceita. E agora? Desvia, dança, movimenta-se. Decorara o mexer das pernas, o balançar do vestido, a estética do salto (e toda perversão contida nesse contexto). Fica mudo, paralisado. É deslumbrante.

Os números do relógio correm. A hora passa. É fim de noite. Ela acena receptiva e rapidamente se fecha num simbólico “tchau”, que esconde um “até nunca mais”, disfarçado de um “até um dia talvez”. Não era pra ser, mesmo sem querer. Vence o medo da reprova. De novo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dia das crianças

Desci. Andei pela rua dos absurdos. Brinquei com as crianças simples e construí castelos de barros. Desmanchei-os um a um, me divertia com o choro infantil dos que sofriam pela destruição. Meus brinquedos caros nem os trouxe. Guardo em casa com minhas coisas. Ninguém mexe nas minhas coisas, mesmo nas que eu não uso. O importante é que sejam minhas.

Não empresto meus brinquedinhos. Talvez até os doe. Esses que encontro no barro não possuem encanto de brinquedo novo. Então eu desejo quebrá-los. Para nunca mais tê-los comigo. Eu quero um brinquedo novo. Agora quero de areia. Areia clara e macia. Castelos de areia.

Não brinco mais com você. Não mais ligarei para indagar “quer brincar?”, como quem oferece um mundo de magia. Não ligo, não brinco, não brigo. Não digo com quem eu fico. Não fujo pro esconderijo. Não conto de quem eu gosto. Eu ouço, guardo e reflito. Repito pra mim cem vezes. Que brincadeira mais chata. Não dá mais para ser criança.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O tamanho do mundo

Os cafés tornam a madrugada mais lenta. É uma forma de refletir sobre a complexidade humana por mais tempo, aproveitando o silêncio da rua, ouvindo o vento rolar as folhas secas no asfalto, tão escuro quanto o céu. Tantos rodeios só servem para concluir que o mundo é um lugar bem pequeno, a ponto de incomodar o fato de esbarrar nas pessoas o tempo todo.

Está na natureza humana o desejo secreto de ser espião. As pessoas querem saber das outras mais do que conhecem sobre si mesmas. Então eu me zango com aquelas frases soltas, ambíguas, ditas em tom ameaçador. Talvez o mundo seja bem menor do que se imagina.

Ignore-me. Abandone-me. Deixe-me seguir em paz. Limite-se a observar. E não me estranhe; não há nada que eu queira ver.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O que se pensa

Eu ando tropeçando na certeza das incertezas. Tenho perdido o sono durante o dia e continuo a divagar na madrugada escura. O breu dos pensamentos perturba a minha idéia de futuro e, mais angustiante ainda, bate-me no estômago o temor do presente. Crio situações mentais mirabolantes, me refugio na idéia de esquivar-me eternamente do gosto amargo dos dias por chegar. Por fim, cogito entregar-me ao ostracismo sentimental, ao tédio e a tudo aquilo em que consiste a insignificância do ser insensível.

Atrapalho-me com as cores; os amarelos me deixam mudo, os escuros e negros possuem feitiço, as outras mil tonalidades despertam curiosidade proporcional a tal peculiaridade. Penso nos verdes e nos negros, passo indiferente aos marrons, me atraio pelos azuis, mas contemplo, mesmo, boquiaberto, a harmonia entre as partes e o apreço pelo som emitido à luz do vermelho escuro, brilhante, sempre.

Formo imagens incontáveis, vivo sonhos invisíveis, abraço o acaso, mesmo quando um tanto insosso. Valorizo, às vezes, as pessoas e concentro-me no que elas proporcionam. O prazer aparece em primeiro plano, quase camuflado de paixão. O amor lava a esperança, poda mudanças. Vive-se para o dia perfeito. Escondem-se lágrimas, atrás de ingratidão, e sobressai-se, sem qualquer culpa ou medo de reprovação, o egoísmo latente até então.

São tantos casos, casados com a sorte, inúmeras sensações. Guardo certas lembranças, adormeço expectativas. Não há outro caminho. Nessa estrada só se pode estacionar sutilmente. Palavras certas podem levar-nos para lugares sombrios. Ainda posso cantar. Cabe o som do alívio. Os passos agora são largos e a voz continua a sumir. Somos o próprio vazio causado pelo tempo, na vida que ainda há de fluir

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ao final da noite

É necessário ter uma boa dose de paciência. Não bastam os belos olhos tristes, nem tampouco a aposta na carência afetiva. É preciso ser estupidamente sensível para perder uma oportunidade. Se as palavras fossem duras, se o egoísmo fosse o bastante, se o riso fosse o que sobra, tudo transcorreria corruptamente bem. Mas a preocupação nauseante com os detalhes quase poéticos, um tanto quanto piegas, certamente patéticos, transformou atração em pseudo-admiração. Pronto, nada mais haveria de funcionar.

Nada disso seria um problema em se tratando do último trago, mas há algo que enlouquecedor que persistirá durante a madrugada: maldito perfume embriagante. O intrigante será a eterna associação. Um pouco de rispidez teria amenizado os efeitos e afastado os indícios, mas álcool ainda é capaz de manipular e enfraquecer as defesas sociais.

Ao menos restarão duas ou três horas antes da próxima travessura. “O que aconteceria se eu fosse embora?” indagou. Uma risada descompromissada respondeu a pergunta e encerrou a noite entre abraços falsos e beijos mecânicos. “Aja com autenticidade, mesmo quando a ocasião exige representação além do usual. Não aceite as obrigações”, disse antes de partir.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quando as lágrimas não param

Ele não mais voltará. Ela ainda vai chorar. Não haverá consolo para a distância, nada que acalme o coração ou que alivie tamanha dor. Por que a vida deve terminar assim? Por que tudo fica tão pequeno, o amor se torna tão grande e a vida tão frágil? As lágrimas cairão sobre as folhas escritas, borrando de azul o branco papel, perdendo para sempre todas as promessas.

E tudo fica assim tão improvável. Coisas sem qualquer explicação. Dia a dia, sentirá a dor, cada vez mais forte, até que diminua, voltando, às vezes, nas crises. Os outros se esquecerão, tudo seguirá seu curso, a vida flui de qualquer forma. Mas, para quem chora, o tempo não passa, a dor não acaba e os amores não morrem.

José*

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

*Carlos Drummond de Andrade

De mãos vazias

A sala estava escura. Ele tenta enxergar tateando o local, caminha cuidadosamente para não esbarrar na mobília (e nas pessoas). Não encontra nada com as mãos. Segue, imaginando trombar em algo a qualquer momento, mas nada parece estar no caminho. Então, ele pensa em voltar à porta, pois perdera o senso de direção. Mas não mais alcançava as paredes. Gritava e não respondiam. Percebeu que estava sozinho.

Sentou-se no chão e caiu num choro inconsolável, de quem não sabe o motivo das lágrimas, mas sente uma tristeza profunda: solidão. O abandono abala o comportamento. Depois de alguns minutos, o ambiente começa a ficar mais claro. Agora consegue observar o completo vazio da sala e apenas a foto na parede; um casal sorridente, trajando roupas verdes.

Ele se lembra de tantos comentários. De tantas as visitas já recebidas. De tanta falsa cumplicidade que já tivera. Sente tristeza novamente. Mas passa rápido, pois não era importante. Resolve tentar um contato. Está ocupada. Pensa no que ainda lhe resta. Pouco, bem pouco. Agora parece muito. É tudo o que ainda existe.