domingo, 28 de junho de 2009

Sigilo

Ele caminha pelas ruas da cidade, todas bem iluminadas, nenhum cenário sinistro ou capcioso. Poderia ir de carro, mas preferia andar, gostava de sentir brisa do inverno, além disso, pensava melhor quando caminhava, sempre olhando tudo a sua volta, mas nada enxergava realmente, pois o pensamento voava e distraia-lhe a vista. Nem percebia detalhes interessantes no trajeto, como flores exóticas em um jardim requintado de uma bela casa, a qual sempre admirara. Mesmo assim, preferia ir a pé.

Às vezes as dores no corpo o perturbavam, fazendo-o pensar na importância de ser livre, não emocionalmente, nem sexualmente, menos ainda financeiramente, mas apenas livre da dor que o impedia de esboçar determinados movimentos repentinamente. Nada poderia ser mais triste do a impossibilidade de mover-se como desejasse, em decorrência de um mal que, acreditava ele, médicos não resolveriam, pois era algo simples demais. Tão simples que não deveria haver cura, apenas algum alívio temporário.

Distraído com esses pensamentos sem importância, esquecia-se das coisas em que realmente queria manter a concentração e não conseguia fazer isso premeditadamente. Fechava os olhos e imaginava toda a fortuna que cobiçava há tanto, por um instante deseja todas as mulheres do mundo, ao mesmo tempo em que as repudiava.

Sentiu vontade de se manifestar, de dizer coisas que vinham à mente, tinha o direito, enfim, de dizer aquilo que pensava. Não, estava errado (e sabia disso). Estava exposto demais, marcado demais, a noite demasiadamente clara, as luzes em perfeita iluminação, usava roupas claras, não tinha um chapéu, nem nada que o escondesse. Não poderia então dizer a que veio. Poderia ser descoberto. Não pronunciou nem mais uma palavra. Calou-se.

terça-feira, 23 de junho de 2009

De volta para a escola

Aquele menino saberá exatamente o que é ter experiência, perder a inocência, entender o lado negro das pessoas, das melhores e das piores. Bastava que ele caminhasse pelo corredor, com quatro livros grossos na mão, andando desajeitado, até que eles espalhassem tudo no chão. Nesse instante ele aprende o sentido das coisas. Não se pode confiar em ninguém. As pessoas são cruéis e ter entendido isso, de maneira definitiva, logo, imutável, era mais que suficiente para que a dor da ingenuidade dispersasse.

Agora aos 12, ele distribui sorvetes por toda a rua. Quarenta centavos em dinheiro atual. Um montante de poucos trocados, perdidos, depois que todas as crianças se negaram a devolver-lhe a quantia. Também ali o alívio e a satisfação por sentir-se capaz de enxergar a maldade nos corações. Tudo passa, a experiência fica.

E sentia no estômago a insegurança. Cada dia mais distante de todas as pessoas. Em casa parecia outro mundo, o respeito, carinho e tudo mais agora era cansativo, incoerente com as ruas para as quais voltaria todas as manhãs, caminhando para a escola, sonhando com a liberdade, prendendo-se ocultamente.

Mas todo o dia tem prova. As notas nem sempre altas. E ainda hoje caminha contando as linhas no chão. Olha pro céu e imagina. Espera pela hora do passeio. Deseja o conforto do lar. A cada dia, tudo mais duro e complicado. Por que então insistir em esperar pó um ato de bondade? Até parece que ainda não aprendeu a conhecer as pessoas. Quanta ingenuidade.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sensibilidade

A sensibilidade pode não ser algo bom. Às vezes me sinto exposto, de maneira muito intensa, me preocupo, me cobro (demais), me avalio, me envergonho, me sinto magoado. Tenho dormido mal. Parece que não domino bem a capacidade de lidar com as adversidades. E é por isso que a sensibilidade não me favorece nessas ocasiões.

Tenho buscado amparo nas pessoas próximas, aquelas que importam de verdade. Quando sinto meu coração afagado, ameniza a angustia de todas as contradições cotidianas, canalizo todas as emoções e me sinto vivo por inteiro, novamente.

Luto contra essas sensações questionadoras diariamente. Não desejo a tristeza, ao menos não essa para a qual não encontro solução. Às vezes sinto vontade de recomeçar aos três anos de idade, me tornar menos sensível às cobranças alheias, fazer crescer a humildade e diminuir o servilismo em mim.

Eu poderia ser bom. Se eu começasse novamente, talvez faria tudo diferente. Repetiria alguns dos erros que tenho colecionado. Não pretendia ser artista ou esportista, a fama não me atrai tanto. Mas eu poderia ser simples, descomplicar sentimentos, reformular minha sensibilidade a favor do meu bem estar para não perder minha paz.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Acontecimento

Tenho andado por estradas vazias. Vez ou outra, dobro os joelhos e imploro aos céus que me indique o caminho. Lugares todos abandonados. Pessoas vagando pelos corredores. Eu já não as enxergo como humanos. Eu tenho chorado a luz de velas. Procuro nomes na memória. Números de telefone escorregam nos dedos. Talvez eu faça uma visita, grite absurdos ou coisa parecida.

Queria saber o final disso tudo. Pela primeira vez nada é parecido. De longe eu vejo o menino ingênuo, esperando o tempo passar. O tempo passou, já chegou, e nada mudou. Eu ei de ver, sei que há de vir: um grande acontecimento. E tudo há de valer a pena, para fazer valer Fernando Pessoa, já que minha alma, eu sei, não é pequena.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O baile

O vestido branco, com detalhes em azul, contrastava com o mel da cor de seus cabelos, soltos, na altura dos ombros. Ela não precisava pronunciar uma palavra. Apenas o olhava, sentado, bebendo o vinho descuidadamente, por vezes desviando do olhar dela. Sabia que poderia prolongar a noite, retardando o seu verdadeiro início, guardando o melhor para depois. Ela o esperava pacientemente, estava ao seu dispor, desinteressada em todo o cenário secundário.

De todas as lembranças que ele leva, a mais forte é a do vestido branco, quase curto, acima dos joelhos. Aquele meio sorriso, sem mostrar os dentes, um pouco inocente (mas não de verdade). Tudo que se desmanchou diante dos seus olhos, antes que ele pudesse sentir novamente o gosto daquela antiga sensação. As coisas não voltam.

Ela

Eu te amo.
Eu te amo.
Eu te amo.
Será?

domingo, 14 de junho de 2009

Esmola

Olha aquele mendigo ali na esquina. Todo mendigo fica na rua, por vezes nas esquinas, escondido, faminto, com frio, não importa. Não sinto frio, não tenho fome, não faço reclamações. Saco um níquel do bolso (nem lembrava que o tinha e tantos outros estão perdidos nos cantos do meu carro), jogo no chão, não encosto a mão nesse mendigo imundo. Lembro da minha mãe, cantando a música do “sujismundo”. Por que diabos será que esse mendigo não toma banho? Não vê que está sujo, emporcalhando toda a calçada. Por que não vai se deitar em outro canto? Aqui ele não há de ficar. Já começa a atrapalhar.

Não lhe dou nem mais um centavo. Ele que coma as sobras (se é que há de sobrar). Não quero ser como o mendigo. Estou na mesma esquina. Espero o bonde chegar. Sei que ainda vou me mudar. Não agüento mais mendigar um grande acontecimento. Mas mesmo assim, esmola não hei de aceitar.

Na rua; na minha ou na sua

Eu olho as pessoas nas ruas, na calçada irregular. Procuro o meu lugar. O velho cospe no chão, o mendigo me pede um tostão. A menina me olha escondido, pra menina eu olho e desvio. Os ventos me provocam arrepio, nos panos me escondo do frio. Paro, faço uma prece. Penso, mas nada mais me apetece. Sigo meu rumo sem pressa. Mas todos andam depressa; a menina, o velho e o mendigo. E eu me vejo perdido. Procuro o nome da rua. Percebo que estou na sua. Um sorriso, logo mais uma lágrima. Ninguém entende essa lástima. Volto ao meu próprio caminho, pois alguém me espera no ninho.

sábado, 13 de junho de 2009

O encontro

O ar faltou-lhe quando por um instante o cenário do seu sonho se fez presente diante dos olhos. Ela aparece repentinamente em seu caminho, olha e, nesse momento, ele imagina toda a hostilidade manifestada em seu sonho. Mas, ao contrário disso, ela surpreende-o com sorriso simpático, e diz “Oi, tudo bem?”, de maneira doce, encantadora.

Então, sem entender aquele sentimento estranho, um gosto amargo na boca, um receio de que ela tivesse agido de forma inconveniente, ele responde ao cumprimento de modo atordoado, praticamente denunciando o susto. Eles seguem caminhos diferentes, com finalidades distintas. Ainda se cruzam mais uma vez antes que os passos prossigam por direções opostas.

Sem sentir os pés no chão, andando por impulso, ele tenta, mas não consegue entender o significado do sonho. Nem tampouco a coincidência de encontrá-la poucas horas depois de acordar. Se ela não é importante a tal ponto (nem perto disso), então a mensagem fica ainda mais obscura. Ele tenta dormir, esperando as respostas em outros sonhos, achando graça de tudo isso.

domingo, 7 de junho de 2009

Antes do banho

Ele não devia ter lembrado naquela hora. Mas como esquecer aquela noite, mesmo diante de um sol escaldante. A imagem da lua era perfeita, quase piegas, mas ainda assim lindo, como nos filmes de amor. A natureza é um fator determinante na construção de um cenário romântico e, nessa ocasião, ela brindou o encontro oferecendo um luar como poucos vistos. O frio tornava a ocasião ainda mais especial. Um pretexto para abraçá-la e uma desculpa pelo tremor no corpo. Mas não havia amor. Cheirava sexo. Forte. Lençóis escuros, janela aberta e as estrelas testemunharam.

Mas era outro dia. Fazia calor. O local se cala, mas a energia continua concentrada, como se escondesse o crime. Ninguém os viu naquele dia. Mas a respiração ofegante, os gemidos abafados, o suor dos corpos, tudo o que constituíra aquela noite se fazia presente de uma forma inexplicável em sua mente. “Eu me lembro de você”, acusavam em seu pensamento as pedras e todos os elementos que ali permanecem para todo o sempre. A natureza o denunciara e ele sentia isso.

De rente, de volta a sensatez. Não a amava. Talvez a tivesse desejado (da mesma forma que naquele instante queria despir a moça ao seu lado). Tentava entender a atração. Por que ela se manifesta pelas pessoas mais inusitadas (e nos momentos mais inoportunos possíveis)? Queria sexo, mas evitava esse pensamento para não olhá-la demasiadamente. Havia esquecido por um momento daquela noite. Planejava outras noites, mais vulgares ainda (quanto mais, melhor).

Alguém o chama para o banho. Acordou de seus pensamentos. Olhou em volta para se certificar. Alívio. Ninguém escutara seus pensamentos. Caminhou até a cozinha. Bebeu água. Esqueceu-se do banho. Permanecia sujo. Mas não se notava.

Simples como deve ser

Ele acorda todas as manhãs atordoado, procurando o cigarro após ter sonhado estar fumando. O som do cotidiano passa despercebido, mesmo no início do dia, quando o ruído do despertar da casa rompe o silêncio do sono. O café. Pouco açúcar. Meia xícara. Mexe bem. Dois goles, deixando o fundinho grudado com açúcar no fundo. Pronto, já está acordado, talvez ligue o computador .

Tudo parece divertido. A vida precisa ser leve para suportar a pressão de todos os dias. No carro, no caminho para o trabalho, às vezes cansativo, outras tantas chato, o som agradável é alento para a perturbação da obrigação. Já em casa tudo parece simples. O dia acabou. Ou começou. Tira a camisa. Outro cigarro (o maço no fim). As vozes são muitas. Melhor não ouvir ou só resmungar um lamento qualquer. O sofá o acomoda. A TV o consola. Um sorriso antes de dormir. Pronto.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma data (como outra qualquer)

O dia se aproxima. O calendário em cima da mesa de trabalho, despretensiosamente, anuncia a chegada da data dentro em breve. Mas muitos dias como esse já se foram. É apenas mais um número. Anos incontáveis se passaram sem que ele tivesse se atentado para o fato de que, de repente, tal ocasião merece uma suposta comemoração, no íntimo de sua imaginação. Talvez pela lembrança daquela vez em que foi autor de um gesto delicado, quem sabe apenas uma tentativa de aproximar novamente seus lábios dos dela. Um tempo se passou para que ele entendesse que o carinho era algo quase fraternal, não fosse uma certa atração psicológica (e não exatamente física).

É possível que a data passasse despercebida, sem que ao menos fizesse um pensamento positivo, desejando-lhe sorte. Mas as comunicações modernas, o mundo em conexão com tudo não o deixam esquecer detalhes como esse. Então, ele observa aquela foto há tanto tempo guardada no fundo de uma gaveta secreta. Lembra com saudade não dos doces beijos, nem tão pouco da suavidade do vinho, mas sim da perspectiva de futuro que tinham naquela época. Recorda-se de ter observado as estrelas, de rir abraçado falando trivialidades. Com certeza, isso sim fazia a maior falta.

Alguém já havia dito que as lembranças ficam adormecidas em nosso coração, até que sejam despertadas por alguma razão. Era isso que acabava de acontecer, anos após aquela noite, a noite que simboliza o breve ciclo. Fotos e datas haviam trazido à tona tais sensações, a falta daquele romantismo inocente (e até inapropriado para as circunstâncias). A saudade daquela voz, delicada e suave era o que mais o entristecia. Tantos anos sem que ouvisse uma só palavra por ela pronunciada.

Sentado em sua mesa, apenas a luz do monitor a iluminar o quarto, ele deixa que todos esses pensamentos lhe percorram a mente. O relógio marca mais de duas horas da manhã. Ele esfrega rapidamente as mãos no rosto, de modo a recuperar a concentração na realidade que ainda lhe resta, guarda novamente as fotografias na velha gaveta empoeirada, fecha os olhos e pensa pela última vez naquele tempo longínquo. Veste o mesmo pijama de todas as noites, deita, já com o quarto totalmente escuro, e aguarda até que o sono lhe domine, na esperança de que os sonhos o levem para outros mundos.
Feliz aniversário!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O telefone que nunca tocou

O telefone sobre a mesa fazia uma sombra um tanto sinistra, devido à iluminação do ambiente. Uma mesa de madeira escura, um telefone negro, um abajur aceso e a noite invadindo o dia calma e silenciosamente. Olhar fixamente para o objeto pode dar a impressão de que aquilo pode se comunicar com as pessoas. E era exatamente isso que acontecia com o rapaz. Ele olhava para o telefone, quase que implorando uma resposta para sua dúvida. Devia ou não ligar?

Talvez não fosse necessário, nem mesmo adequado. A reflexão parte, então, para o campo dos sentimentos. “O que eu sinto de verdade?”, pensava. Enxergar com clareza a natureza do que se sente não é, de fato, uma tarefa fácil. Mas o olhar perdido para a sombra do aparelho também não estava mais ajudando.

Começou, então, a se perder nos pensamentos, imaginando todas as funcionalidades do telefone, os avanços tecnológicos e como tudo se banalizou em virtude do fácil acesso à comunicação. Ninguém mais espera uma ligação como antigamente. Não se trata de nenhum acontecimento. Também por isso, ele hesitava em ligar.

Os pensamentos vagavam tão livremente, que, mesmo sem querer, ele já apresentava uma ligeira sonolência. E, de novo, o dia não poderia ser como planejado. Nada daria certo. Já é quase uma tradição as palavras não serem ditas, os lábios não se encontrarem, o amor não acontecer e o telefone jamais tocar.