De repente, aqueles belos olhos se tornaram diabólicos. Tão cruéis que ele sentia nojo e repugnância apenas de olhá-la. Uma imagem bizarra, escatológica, nada semelhante à antiga beleza que o seduzira traiçoeiramente. A ânsia que sentia é indescritível, o reflexo do sol em seu rosto ofuscava a visão, mas era uma luz estranha, querendo cegar-lhe até que seus olhos fossem derretidos. O tom de voz, antes doce, agora possuía um agudo insuportável.
Claro, sua mágoa valorizava o cenário do imaginário, mas, na verdade, já não sentia. Nem raiva, nem mágoa, nem rancor, nem arrependimento, menos ainda atração. Uma completa apatia pelo ser a sua frente, mirando-o, tentando pronunciar palavras incertas, frases incompletas. Mas seus ouvidos já não sabiam escutar. Estava livre de todas as promessas, de todas as exigências, de tudo aquilo que transtornava o seu emocional. Apenas uma sensação de inigualável alívio. Que levassem tudo o que lhe restou, exceto a paz que nesse instante conquistara.
Chuva e sol brindavam, simultaneamente, aquele momento. Mas nem mesmo a sensação de calor contrastada à água quase fria passava pelo universo de sua percepção. O intuito daquele momento ocupava todo o seu ser, percorrendo em suas vísceras a neutralização entre ódio e amor, desejo e aversão. Sim, poderia sair daquele inferno psicológico quando quisesse. Já estaria fora, não fosse um preciosismo que o obrigava a contemplar a suposta dor e toda aquela cena irrelevante para sua consciência.
Num lugar pouco distante, ele, então, passeava com o espírito leve. Lápides mal escritas o cercavam, sem que ele sequer notasse. De fato, os mortos são apenas histórias (que podem ser esquecidas). Já um pouco cansado, após atravessar todo o terreno, tirou do bolso um cantil e com o sangue que havia nele regou as flores, todas mortas, plantadas em seu jardim. Olhou novamente para o horizonte, a imagem das tumbas se fundira com a luz do sol, formando um cenário desfocado. Pensou por alguns minutos no verdadeiro sentido daquilo. Deixou cair sobre a terra o cantil. Balançou rapidamente a cabeça, se desfez de todas as suas roupas, ateou fogo em tudo, e voltou para casa. Lar, doce lar.
sábado, 30 de maio de 2009
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Um simples adeus
O que fazer para as pessoas pararem de ir embora?
Como expressar o sentimento de satisfação, um misto de saudade e gratidão por todas as cervejas nas tardes quentes ou coca-cola de vidro nas noites de céu estrelado?
Como sintonizar todas as reflexões sem respostas ou comparar passado e futuro se agora a mesa vazia?
É claro, as teorias abstratas jamais cessarão. A contemplação com alma dos filmes continuará a se proliferar, formando novas visões do mundo, talvez até de outros mundos, construindo novas formas de viver
Mas nada substituirá o gosto das velhas conversas, os hábitos semanais, a descrição dos ambientes e a total despreocupação com a indiferença alheia.
É cada vez mais difícil conhecer um poeta. A sensibilidade humana parece se esconder na vergonha de sentir. Guardarei as metáforas em imagem de mosaico, formada por todas as pequenas lembranças dos grandes acontecimentos.
As palavras poderiam se tornar ainda mais tristes ao longo das linhas. Mas isso ocultaria o reconhecimento da grandiosidade do percurso e do prazer por ter estado no caminho.
Ainda assim, é difícil encontrar a maneira certa da despedida. Talvez somente “até mais”, ou aquele aperto de mão costumeiro, que encerra um dia já comunicando o próximo café, a próxima fala.
Quem sabe apenas “Boa sorte”, num contexto informal, quase de praxe na situação.
Mas prefiro deixar o abraço sincero e a saudade verdadeira.
Sempre haverá um lugar junto à mesa, uma palavra de força, raízes neste chão, um coração de irmão.
Então, um simples adeus, com sabor de "até breve".
Como expressar o sentimento de satisfação, um misto de saudade e gratidão por todas as cervejas nas tardes quentes ou coca-cola de vidro nas noites de céu estrelado?
Como sintonizar todas as reflexões sem respostas ou comparar passado e futuro se agora a mesa vazia?
É claro, as teorias abstratas jamais cessarão. A contemplação com alma dos filmes continuará a se proliferar, formando novas visões do mundo, talvez até de outros mundos, construindo novas formas de viver
Mas nada substituirá o gosto das velhas conversas, os hábitos semanais, a descrição dos ambientes e a total despreocupação com a indiferença alheia.
É cada vez mais difícil conhecer um poeta. A sensibilidade humana parece se esconder na vergonha de sentir. Guardarei as metáforas em imagem de mosaico, formada por todas as pequenas lembranças dos grandes acontecimentos.
As palavras poderiam se tornar ainda mais tristes ao longo das linhas. Mas isso ocultaria o reconhecimento da grandiosidade do percurso e do prazer por ter estado no caminho.
Ainda assim, é difícil encontrar a maneira certa da despedida. Talvez somente “até mais”, ou aquele aperto de mão costumeiro, que encerra um dia já comunicando o próximo café, a próxima fala.
Quem sabe apenas “Boa sorte”, num contexto informal, quase de praxe na situação.
Mas prefiro deixar o abraço sincero e a saudade verdadeira.
Sempre haverá um lugar junto à mesa, uma palavra de força, raízes neste chão, um coração de irmão.
Então, um simples adeus, com sabor de "até breve".
quinta-feira, 28 de maio de 2009
O cruzamento
Seus olhos estavam secos. As lágrimas escorriam por dentro. E ele a imaginar elogios. Mas o corpo não sabe mais falar. A mágoa interrompeu a antiga intimidade. Até parece triste. Eles se olham buscando explicações. O sentimento não tem nome. Já não pode ser amor. Ainda existe atração. É claro. Mas essa é uma história sem fim. E ambos ficam ali.
E nem tão distante assim, alguém, de mochila nas costas, segue para a estação na busca de novos caminhos. Sempre cantando, a sorrir e a rimar certas frases. Já mais adiante, aquela menina esperta prepara sua decolagem rumo ao norte de sua saudade.
E em uma memória recente, o vinho escorre na taça. A marca sutil de batom. Quanta graça num só sorriso. Mas ela deixou a mesa, entrou num táxi amarelo e partiu (também o pobre coração). As bocas se calam, as palavras se esgotam, triunfa a informalidade, a falta de assunto, a saudade da esperança e a mesma visão turva do mesmo rapaz solitário.
E nem tão distante assim, alguém, de mochila nas costas, segue para a estação na busca de novos caminhos. Sempre cantando, a sorrir e a rimar certas frases. Já mais adiante, aquela menina esperta prepara sua decolagem rumo ao norte de sua saudade.
E em uma memória recente, o vinho escorre na taça. A marca sutil de batom. Quanta graça num só sorriso. Mas ela deixou a mesa, entrou num táxi amarelo e partiu (também o pobre coração). As bocas se calam, as palavras se esgotam, triunfa a informalidade, a falta de assunto, a saudade da esperança e a mesma visão turva do mesmo rapaz solitário.
terça-feira, 26 de maio de 2009
A moça e o rapaz
Assim balançavam seus cabelos cor de mel, na altura dos ombros, soltos ao vento, quase um clichê do cotidiano, convidando-o a um abraço, promovendo o encontro dos corpos, o contato da malha das roupas, a troca de calor enfim. Um sorriso quase doce encantava o rapaz, que fingia conhecer todas as intenções maliciosas ou ingênuas daquele olhar duvidoso.
Uma voz aveludada, em tom sereno, pronunciava em sua mente “Vai me permitir ir embora?”, sem que um músculo do rosto dela houvesse se movimentado. A resposta à pergunta também soava melancolicamente, com tom incerto de quem diz “não sei o que devo fazer”. Sim, eles conversavam mentalmente.
A moça, então, vira-se dando as costas ao rapaz e caminhando em direção ao mundo de verdade. A imagem dele perde a opacidade e pouco a pouco irá se apagar irreversivelmente. Com os ombros pesados, corpo estático, o rapaz observa o horizonte, já quase tão distante quanto ela. Sem pronunciar uma palavra, ele percebe a chuva fina tocando a superfície de sua face, recorda-se por alguns segundos de todos os beijos ardentes que nunca deram, fecha os olhos e, por um instante, quase sente, novamente, a ponta dos cabelos dela escorregando em seus dedos a fazer-lhe cócegas. Então ele esboça um sorriso e volta para casa.
Uma voz aveludada, em tom sereno, pronunciava em sua mente “Vai me permitir ir embora?”, sem que um músculo do rosto dela houvesse se movimentado. A resposta à pergunta também soava melancolicamente, com tom incerto de quem diz “não sei o que devo fazer”. Sim, eles conversavam mentalmente.
A moça, então, vira-se dando as costas ao rapaz e caminhando em direção ao mundo de verdade. A imagem dele perde a opacidade e pouco a pouco irá se apagar irreversivelmente. Com os ombros pesados, corpo estático, o rapaz observa o horizonte, já quase tão distante quanto ela. Sem pronunciar uma palavra, ele percebe a chuva fina tocando a superfície de sua face, recorda-se por alguns segundos de todos os beijos ardentes que nunca deram, fecha os olhos e, por um instante, quase sente, novamente, a ponta dos cabelos dela escorregando em seus dedos a fazer-lhe cócegas. Então ele esboça um sorriso e volta para casa.
O amor e a biblioteca
Os corrimões de ferro, pintura preta, trazem à mente a lembrança do tato ao se apoiar, desnecessariamente, naquela estrutura gelada para subir os quatro ou cinco degraus que davam acesso ao rico acervo de livros, poucos realmente lidos. O jardim, com bancos de concretos acinzentados (jamais utilizados de fato, servindo, aos seus olhos, apenas como decoração) contrastavam com a presença das motocicletas, umas acorrentadas, outras simplesmente estacionadas. O misto de sensações afloradas nos momentos em que se dirigia àquele local é lembrança forte na vida do rapaz.
Cruzando com todas aquelas pessoas, percebia o barulho da cantina principal, sentia o cheiro dos ternos escuros daqueles que hoje devem ser advogados. Ao mesmo tempo, trombava com as moças vestidas com jeans, sandálias baixas, pouca criatividade na apresentação estética, o que normalmente implicava em relativa dose de potencial acadêmico. Essa mistura de perfis fazia do lugar um ambiente neutro, e, então, sua mente trabalhava em uma velocidade assustadora, jamais imaginando que um dia se recordaria com tamanha riqueza de detalhes de todo o trajeto até a biblioteca, com a costumeira observação do refeitório e a solitária capacidade de abstrair-se.
A maior parte daquelas pessoas com as quais cruzou nessas ocasiões nunca mais passará por lá. Ele não se lembra de seus rostos, de seus tamanhos, mas consegue imaginar a diversidade de histórias que perambulavam pelos corredores, praças e jardins. Impressionante pensar que as construções foram projetas e criadas pelo homem, que muda constantemente, se locomove e desaparece, mas tudo o que foi levantado permanece lá, abrigando novas vidas
De posse do pequeno livro de filosofia, ele parte em direção ao ponto de ônibus, deixando pra trás o rastro de sua existência naquele local e contexto, assim como todos os que anonimamente por lá passaram. Rapidamente ele volta à realidade, folheia as páginas quase amareladas e pensa em todo o conhecimento que irá adquirir ao final da leitura. Em alguns minutos o rapaz está de volta ao mundo particular, sem imaginar o quão forte ainda baterá seu coração durante os anos passados ali.
Cruzando com todas aquelas pessoas, percebia o barulho da cantina principal, sentia o cheiro dos ternos escuros daqueles que hoje devem ser advogados. Ao mesmo tempo, trombava com as moças vestidas com jeans, sandálias baixas, pouca criatividade na apresentação estética, o que normalmente implicava em relativa dose de potencial acadêmico. Essa mistura de perfis fazia do lugar um ambiente neutro, e, então, sua mente trabalhava em uma velocidade assustadora, jamais imaginando que um dia se recordaria com tamanha riqueza de detalhes de todo o trajeto até a biblioteca, com a costumeira observação do refeitório e a solitária capacidade de abstrair-se.
A maior parte daquelas pessoas com as quais cruzou nessas ocasiões nunca mais passará por lá. Ele não se lembra de seus rostos, de seus tamanhos, mas consegue imaginar a diversidade de histórias que perambulavam pelos corredores, praças e jardins. Impressionante pensar que as construções foram projetas e criadas pelo homem, que muda constantemente, se locomove e desaparece, mas tudo o que foi levantado permanece lá, abrigando novas vidas
De posse do pequeno livro de filosofia, ele parte em direção ao ponto de ônibus, deixando pra trás o rastro de sua existência naquele local e contexto, assim como todos os que anonimamente por lá passaram. Rapidamente ele volta à realidade, folheia as páginas quase amareladas e pensa em todo o conhecimento que irá adquirir ao final da leitura. Em alguns minutos o rapaz está de volta ao mundo particular, sem imaginar o quão forte ainda baterá seu coração durante os anos passados ali.
sábado, 23 de maio de 2009
O homem de barba branca
O céu azul, límpido como o mar, quase sem nuvens, contrastava com o branco da barba envelhecida, crescida no rosto não por opção, mas por mera ação do tempo e falta de cuidados de higiene diária. A bengala o acompanhava tanto para auxílio nas breves caminhadas como para defesa de possíveis ataques de jovens com mentes desocupadas e corações vazios. A vida reservou-lhe poucas opções além de mendigar, passando a maior parte das horas do dia encostado ao muro com reboco desmanchando, acumulando ao redor de si uns poucos panos e um saco com todos os pertences: sobras de alimentos e objetos retirados do lixo, apenas como volume, para satisfazer a sensação do “ter”.
Dois dias ancorado a todas as angústias de uma vida de lamentação, desgosto e desilusões. “Não estou roubando nada”, retrucava vez ou outra, quase que justificando os infortúnios para os poucos que se arriscavam questioná-lo ou queixar-se. O mau cheiro e a presença nada condizente à estética do bairro de classe alta começava a incomodar os vizinhos, que se deparavam com ele todas as manhãs, na ida ao trabalho ou à padaria. Um bate-boca na loja ao lado, estudantes voltando da aula, pessoas em suas vidas apressadas, e, em meio a esse cenário do cotidiano, permanecia o homem, rotulado de mendigo, já sem esperança, sem perspectiva: a espera da morte. Não pedia comida, nem bebida, menos ainda dinheiro. Nenhum desejo além de ver o tempo passar e aproximar-se do fim.
A ambulância municipal estaciona e, cheio de boa vontade, o enfermeiro tenta convencê-lo a ir ao hospital. Os vizinhos se dizem preocupados. Uma voz, em tom de piedade adverte. “Nós estamos preocupados com o senhor”. Os olhos desacreditados recusam o auxílio e se voltam para o próprio universo, que parece coexistir com o dia-a-dia daquele pacato bairro, outrora conhecido pelas abundantes árvores, que formavam um belo túnel de folhas verdes, antes das raízes invadirem residências, resultando na ação de serras elétricas, ainda comuns em tempos de conscientização ambiental.
Na madrugada fria, cobertores pulam dos armários, bebidas quentes ajudam a aquecer, pijamas e flanelas amenizam o frio de todos os que se escondem da brisa no conforto do lar. E o homem de barba branca atravessa a noite encolhido em seus trapos. Um novo dia nasce. Moradores lamentam a presença do homem. Este, por sua vez, lamenta a ausência da morte e torna a esperá-la tranqüila a ansiosamente.
Dois dias ancorado a todas as angústias de uma vida de lamentação, desgosto e desilusões. “Não estou roubando nada”, retrucava vez ou outra, quase que justificando os infortúnios para os poucos que se arriscavam questioná-lo ou queixar-se. O mau cheiro e a presença nada condizente à estética do bairro de classe alta começava a incomodar os vizinhos, que se deparavam com ele todas as manhãs, na ida ao trabalho ou à padaria. Um bate-boca na loja ao lado, estudantes voltando da aula, pessoas em suas vidas apressadas, e, em meio a esse cenário do cotidiano, permanecia o homem, rotulado de mendigo, já sem esperança, sem perspectiva: a espera da morte. Não pedia comida, nem bebida, menos ainda dinheiro. Nenhum desejo além de ver o tempo passar e aproximar-se do fim.
A ambulância municipal estaciona e, cheio de boa vontade, o enfermeiro tenta convencê-lo a ir ao hospital. Os vizinhos se dizem preocupados. Uma voz, em tom de piedade adverte. “Nós estamos preocupados com o senhor”. Os olhos desacreditados recusam o auxílio e se voltam para o próprio universo, que parece coexistir com o dia-a-dia daquele pacato bairro, outrora conhecido pelas abundantes árvores, que formavam um belo túnel de folhas verdes, antes das raízes invadirem residências, resultando na ação de serras elétricas, ainda comuns em tempos de conscientização ambiental.
Na madrugada fria, cobertores pulam dos armários, bebidas quentes ajudam a aquecer, pijamas e flanelas amenizam o frio de todos os que se escondem da brisa no conforto do lar. E o homem de barba branca atravessa a noite encolhido em seus trapos. Um novo dia nasce. Moradores lamentam a presença do homem. Este, por sua vez, lamenta a ausência da morte e torna a esperá-la tranqüila a ansiosamente.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Razão textual
O que somos afinal? Por que a referência em primeira pessoa do plural me parece tão impessoal, se insistimos em burlar todos os mecanismos que forçam o “eu”, para que academicamente sejamos “nós” e jornalisticamente seja “ele”, em terceira pessoa? Talvez o motivo seja evitar a cilada da poesia para os “não-poetas”, mas não se escapa, sejamos nós, sejam eles, ou, seja ele, da promiscuidade cultural predominante em nosso redor, guiada por todas essas formatações coercivas e proibitivas.
Temos medo de ridicularizar a criação com rimas pobres, clichês que insistem em “sonhar para poder amar”, mas esbarramos nas insistentes quedas de bom senso e bom gosto (se é que a essa altura há com que se medir tal aspecto). Caderno de caligrafia para as crianças, técnicas de digitação para os adultos, dicionários eletrônicos, obras clássicas e, até mesmo, em certo momento insano, a suposta liberdade para a criação pseudo literária. Quanta ingenuidade carregamos, no constante presente do indicativo, ousando, vez ou outra, trocadilhos como “imperfeições” do pretérito mais que perfeito. Quiséramos nós tal nobreza com a língua.
Na verdade, não importa. Somos o que? Escritores, poetas, jornalistas, artistas, publicitários encarregados da autopromoção? Para quem estamos escrevendo? Para nutrir o intelecto dos leitores? Para alcançarmos um lugar ao sol (assim mesmo, com todo o clichê que convém à expressão)? Para Deus? Para mim? Ou para você? Tanto faz. Simples, coloquialmente como se pronuncia e displicentemente: “tanto faz” (mesmo).
Ninguém nos lê com a alma, ao menos não com a nossa. Tudo é descartável e reciclável no universo da criação. Não tenhamos a pretensão de pertencer ao círculo de autores contemporâneos, mesmo porque muitos, que estão além deles, já afirmam que chegamos à pós-modernidade. O que virá depois disso? O que deixaremos para as próximas épocas? Quem disse que precisamos deixar algo? Não produzamos nada com esse intuito, pois nem mesmo o texto de nossa lápide poderemos editar. Tudo estará a cargo deles (como, aliás, sempre esteve).
Não somos figurões. Somos pensantes. Sim, sabemos disso. Mas isso, ao menos hoje, não implica em nada além do horizonte (para não desprezar mais um clichê, como convém a um bom e paradoxal autor prolixo, com pouco a contribuir). Pensamos por nós mesmos, às vezes não escrevemos para Deus, mas Ele insiste em nos escrever em linguagens abstratas, todos os dias, acreditemos ou não.
Linhas incertas até aqui, nada que ajudasse a compreender o sentido de tal pobre inspiração, rendendo breves compilações das lembranças e dos sentimentos. Nada que importe ao outro, a menos que vigore na pobre construção do medíocre repertório que se apresenta a catártica sensação descrita na nobre avaliação da tragédia em Aristóteles.
Voltemo-nos às nossas inquietações e incertezas, verdadeiras razões das reflexões que insistem em transbordar a alma, derramando nos papéis a tinta que constituem nossas explanações. Um brinde ao absurdo.
Temos medo de ridicularizar a criação com rimas pobres, clichês que insistem em “sonhar para poder amar”, mas esbarramos nas insistentes quedas de bom senso e bom gosto (se é que a essa altura há com que se medir tal aspecto). Caderno de caligrafia para as crianças, técnicas de digitação para os adultos, dicionários eletrônicos, obras clássicas e, até mesmo, em certo momento insano, a suposta liberdade para a criação pseudo literária. Quanta ingenuidade carregamos, no constante presente do indicativo, ousando, vez ou outra, trocadilhos como “imperfeições” do pretérito mais que perfeito. Quiséramos nós tal nobreza com a língua.
Na verdade, não importa. Somos o que? Escritores, poetas, jornalistas, artistas, publicitários encarregados da autopromoção? Para quem estamos escrevendo? Para nutrir o intelecto dos leitores? Para alcançarmos um lugar ao sol (assim mesmo, com todo o clichê que convém à expressão)? Para Deus? Para mim? Ou para você? Tanto faz. Simples, coloquialmente como se pronuncia e displicentemente: “tanto faz” (mesmo).
Ninguém nos lê com a alma, ao menos não com a nossa. Tudo é descartável e reciclável no universo da criação. Não tenhamos a pretensão de pertencer ao círculo de autores contemporâneos, mesmo porque muitos, que estão além deles, já afirmam que chegamos à pós-modernidade. O que virá depois disso? O que deixaremos para as próximas épocas? Quem disse que precisamos deixar algo? Não produzamos nada com esse intuito, pois nem mesmo o texto de nossa lápide poderemos editar. Tudo estará a cargo deles (como, aliás, sempre esteve).
Não somos figurões. Somos pensantes. Sim, sabemos disso. Mas isso, ao menos hoje, não implica em nada além do horizonte (para não desprezar mais um clichê, como convém a um bom e paradoxal autor prolixo, com pouco a contribuir). Pensamos por nós mesmos, às vezes não escrevemos para Deus, mas Ele insiste em nos escrever em linguagens abstratas, todos os dias, acreditemos ou não.
Linhas incertas até aqui, nada que ajudasse a compreender o sentido de tal pobre inspiração, rendendo breves compilações das lembranças e dos sentimentos. Nada que importe ao outro, a menos que vigore na pobre construção do medíocre repertório que se apresenta a catártica sensação descrita na nobre avaliação da tragédia em Aristóteles.
Voltemo-nos às nossas inquietações e incertezas, verdadeiras razões das reflexões que insistem em transbordar a alma, derramando nos papéis a tinta que constituem nossas explanações. Um brinde ao absurdo.
domingo, 17 de maio de 2009
Fábrica
O som ensurdecedor indica o exato momento da transição: o final para os já exaustos e o início de um turno exaustivo para os ainda cansados homens de uniformes, padronizados tanto na vestimenta, quanto no sentido dado à vida, sem escolha, sem perspectiva, sem planos nem sonhos. As ações são as mesmas, sempre, sem mudanças.
Não pense. Não questione. Não espere. Não pergunte. Não reclame. Motorize seus movimentos. Execute. Mate a sua percepção, pare de contar, pare de refletir. Não imagine, nem sinta dor, nem ódio, nem amor. Siga o sistema, sem ao menos saber que o segue ou mesmo exista um. Olhar sempre a frente, de preferência para baixo. O tempo passa, mas você não o conta.
Melhor alimentar-se. É intervalo. Siga o ritual. Café amargo, biscoito água e sal. Poucos movimentos com a boca. Não há nada a ver com a fome. Apenas mantenha o cronograma. Pouco importa seu estômago. Esqueça que tem um. Na verdade, você não o tem. Nem mesmo pertence a si mesmo. Robotize seus atos. E lembre-se: robôs não pensam. Executam. Faça dessa forma, mas não faça associações.
Final do turno. Deixe o uniforme. Guarde equipamentos. Hora do descanso. De ir para a casa, lembrar-se que tem um lar. Retome sua vida. Ela volta a te pertencer nesse momento. Sonhe com o amor. Viva com ardor. Tenha esperanças. Chore, grite, liberte sua raiva, seu gemido de dor, seu sussurro de prazer. Sinta o sol novamente.
Mas não é mais possível. Você não se lembra mais. Não sabe como proceder. Não pode voltar atrás. Então você dorme tentando se lembrar. Acorda esquecendo seus sonhos. Apanha seu uniforme. A vida na fábrica segue. O vazio em você também.
Não pense. Não questione. Não espere. Não pergunte. Não reclame. Motorize seus movimentos. Execute. Mate a sua percepção, pare de contar, pare de refletir. Não imagine, nem sinta dor, nem ódio, nem amor. Siga o sistema, sem ao menos saber que o segue ou mesmo exista um. Olhar sempre a frente, de preferência para baixo. O tempo passa, mas você não o conta.
Melhor alimentar-se. É intervalo. Siga o ritual. Café amargo, biscoito água e sal. Poucos movimentos com a boca. Não há nada a ver com a fome. Apenas mantenha o cronograma. Pouco importa seu estômago. Esqueça que tem um. Na verdade, você não o tem. Nem mesmo pertence a si mesmo. Robotize seus atos. E lembre-se: robôs não pensam. Executam. Faça dessa forma, mas não faça associações.
Final do turno. Deixe o uniforme. Guarde equipamentos. Hora do descanso. De ir para a casa, lembrar-se que tem um lar. Retome sua vida. Ela volta a te pertencer nesse momento. Sonhe com o amor. Viva com ardor. Tenha esperanças. Chore, grite, liberte sua raiva, seu gemido de dor, seu sussurro de prazer. Sinta o sol novamente.
Mas não é mais possível. Você não se lembra mais. Não sabe como proceder. Não pode voltar atrás. Então você dorme tentando se lembrar. Acorda esquecendo seus sonhos. Apanha seu uniforme. A vida na fábrica segue. O vazio em você também.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Manhãs de domingo
As idéias das manhãs de domingo possuem um sabor especial. Manchado pelo café, aquela gota que lentamente escorre da pequena xícara branca, o jornal, retrato da realidade local, atento às atrocidades e simplicidade do cotidiano interiorano, traz o item que, desapercebidamente, provoca um grau de satisfação superior naquele leitor. A leitura é feita vagarosamente, formando a imagem acústica de cada frase, até que cada uma se torne idéia e ganhe contexto, sem pressa, deliciando-se com a articulista, sempre a direita superior da página, com bordas arredondadas, determinando, mesmo que sem querer, a superioridade daquele texto frente a tudo mais que se pode ler naquelas folhas.
As pausas, consciência distante, olhos para o infinito, são sempre propositais. Nesses instantes, ele, leitor, transfere-se para o universo criado pela autora, imaginando que, nem por um breve tempo, ela deve ter na mente a idéia do quão impressionante e envolvente é para ele a contemplação daquelas linhas, que já se tornaram símbolo do ritual matinal dominical, agora ameaçado pelos obstáculos mundanos. Talvez a nova edição contribua de alguma forma para a reflexão sobre os aspectos desse atual contexto. Quem sabe pela identificação profissional, embora quisera ele a mesma perspicácia com conteúdos opinativos, em desacordo com os padrões que cerceiam a criatividade. De fato, dois ou três níqueis para o encontro físico com o papel, e, simbólico / imaginário com a autora, são, provavelmente, mais interessantes do que um simples acesso digital, mesmo que gratuito.
Passados alguns minutos, a paz ameaça a ser perturbada. O som estridente do ser na coleira é talvez menos perceptível do que o gritante atentado ao bom senso, às regras e normas, não as que limitam a atividade humana, mas as que garantem a organização saudável e necessária para a vida em sociedade. A respiração seria o controle para a alma e para o corpo, não fosse a fumaça branca saindo de outras bocas, invadindo também os pulmões supostamente saudáveis. A vida em sociedade. Tudo pode ser superado. Retomada a concentração, após a leitura, a observação da natureza humana faz da sua capacidade de percepção um grande laboratório para o estudo da mente e análise dos comportamentos alheios. O mistério só aumenta.
O tempo passa em uma velocidade diferente. Os mecanismos contemporâneos para a sua medição são supérfluos nesse momento, mas sacados do bolso vez ou outra, para comunicar uma idéia original para outros amigos, ausentes até então. Mensagens que servirão de pauta para as divagações semanais da vida boêmia. E a paz é reconquistada, centrando-se em suas incertezas e demais inquietações que o perseguirão pela vida toda. Mas ainda é manhã de domingo. Então, ele dobra o jornal ao meio, sempre após correr os olhos para as demais intervenções de impacto, e despede-se mentalmente da autora, ansioso pela próxima edição. A vida simplesmente segue.
As pausas, consciência distante, olhos para o infinito, são sempre propositais. Nesses instantes, ele, leitor, transfere-se para o universo criado pela autora, imaginando que, nem por um breve tempo, ela deve ter na mente a idéia do quão impressionante e envolvente é para ele a contemplação daquelas linhas, que já se tornaram símbolo do ritual matinal dominical, agora ameaçado pelos obstáculos mundanos. Talvez a nova edição contribua de alguma forma para a reflexão sobre os aspectos desse atual contexto. Quem sabe pela identificação profissional, embora quisera ele a mesma perspicácia com conteúdos opinativos, em desacordo com os padrões que cerceiam a criatividade. De fato, dois ou três níqueis para o encontro físico com o papel, e, simbólico / imaginário com a autora, são, provavelmente, mais interessantes do que um simples acesso digital, mesmo que gratuito.
Passados alguns minutos, a paz ameaça a ser perturbada. O som estridente do ser na coleira é talvez menos perceptível do que o gritante atentado ao bom senso, às regras e normas, não as que limitam a atividade humana, mas as que garantem a organização saudável e necessária para a vida em sociedade. A respiração seria o controle para a alma e para o corpo, não fosse a fumaça branca saindo de outras bocas, invadindo também os pulmões supostamente saudáveis. A vida em sociedade. Tudo pode ser superado. Retomada a concentração, após a leitura, a observação da natureza humana faz da sua capacidade de percepção um grande laboratório para o estudo da mente e análise dos comportamentos alheios. O mistério só aumenta.
O tempo passa em uma velocidade diferente. Os mecanismos contemporâneos para a sua medição são supérfluos nesse momento, mas sacados do bolso vez ou outra, para comunicar uma idéia original para outros amigos, ausentes até então. Mensagens que servirão de pauta para as divagações semanais da vida boêmia. E a paz é reconquistada, centrando-se em suas incertezas e demais inquietações que o perseguirão pela vida toda. Mas ainda é manhã de domingo. Então, ele dobra o jornal ao meio, sempre após correr os olhos para as demais intervenções de impacto, e despede-se mentalmente da autora, ansioso pela próxima edição. A vida simplesmente segue.
O conto
Ninguém se interessa pelo o que há dentro de você. De verdade, não. E talvez por isso o conto, tão bem guardado, pela excessiva precaução, vestida de modéstia e insegurança, esteja hoje empoeirado, esquecido, dentro de uma gaveta qualquer. As folhas já amareladas nem mesmo chegaram a ser lidas até o final. Definitivamente, não há relevância alguma. Nem no suposto valor cultural, menos ainda nos anseios refletidos nas letras e palavras, que pareciam deslizar pelo espaço quase branco, compondo o universo tão peculiar, carregado por (pouco) tempo com muito gosto.
Não poderia ser verdade que o tempo transforma as pessoas, mas há de se encontrar coerência nas pessoas que transformam o tempo em que vivem. E aquele tempo, tão bem pintado, como as mais intrigantes falsificações ideológicas, foi transfigurado, apropriando-se do impacto esteticamente positivo proporcionado pelo estranhamento inicial.
Mas, o que seria aquele conto? A intimidade, talvez. A mesma que permite aos seres pensantes a exposição de suas mais particulares hipóteses. Triste, então, que as idéias se perderam para sempre (?). Não, nem triste, tampouco alegre. Possivelmente, apático. Nisso consiste a magnitude da percepção. Compreender a insignificância das folhas e a pobreza do conteúdo, mas reconhecer a importância da entrega.
Palavras não lidas são amontoados de letras escritas para ninguém. E assim permanecerão todas aquelas idéias abandonadas em um lugar qualquer, não mais importante que uma velha gaveta no fundo do armário.
Não poderia ser verdade que o tempo transforma as pessoas, mas há de se encontrar coerência nas pessoas que transformam o tempo em que vivem. E aquele tempo, tão bem pintado, como as mais intrigantes falsificações ideológicas, foi transfigurado, apropriando-se do impacto esteticamente positivo proporcionado pelo estranhamento inicial.
Mas, o que seria aquele conto? A intimidade, talvez. A mesma que permite aos seres pensantes a exposição de suas mais particulares hipóteses. Triste, então, que as idéias se perderam para sempre (?). Não, nem triste, tampouco alegre. Possivelmente, apático. Nisso consiste a magnitude da percepção. Compreender a insignificância das folhas e a pobreza do conteúdo, mas reconhecer a importância da entrega.
Palavras não lidas são amontoados de letras escritas para ninguém. E assim permanecerão todas aquelas idéias abandonadas em um lugar qualquer, não mais importante que uma velha gaveta no fundo do armário.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
O cão e o lago
O que faz o cão diante do lago?
Não há ponte alguma, nem nenhuma daquelas mensagens explicativas, imagens referenciais, nada que cruze o seu repertório.
Eu não preciso ter um cão. Eu não quero ser um cão. Eu não sou como as outras pessoas. Mas, paradoxalmente, sou igual a elas, fugindo das mesmas inquietações, aguardando pelas mesmas instruções.
E, ainda preciso atravessar o lago.
Voltarei à fábrica.
Aguardarei pela próxima instrução, olhando no lago o reflexo do absurdo.
Não há ponte alguma, nem nenhuma daquelas mensagens explicativas, imagens referenciais, nada que cruze o seu repertório.
Eu não preciso ter um cão. Eu não quero ser um cão. Eu não sou como as outras pessoas. Mas, paradoxalmente, sou igual a elas, fugindo das mesmas inquietações, aguardando pelas mesmas instruções.
E, ainda preciso atravessar o lago.
Voltarei à fábrica.
Aguardarei pela próxima instrução, olhando no lago o reflexo do absurdo.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Diálogo
Diálogo: “conversação entre duas ou mais pessoas”.
O que transforma uma simples abdução em terceiridade - produto final, diálogo?
A resposta está na simples intenção de comunicar, rendendo-se ao desejo intenso e à necessidade inequívoca de expressar-se.
Eis aqui o primeiro passo dessa longa caminhada metafórica, passeando pelos espaços icônicos, colhendo referências, em busca da utopia da simbologia ideal.
O que transforma uma simples abdução em terceiridade - produto final, diálogo?
A resposta está na simples intenção de comunicar, rendendo-se ao desejo intenso e à necessidade inequívoca de expressar-se.
Eis aqui o primeiro passo dessa longa caminhada metafórica, passeando pelos espaços icônicos, colhendo referências, em busca da utopia da simbologia ideal.
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