As portas fechadas comprimem o ambiente, a tal ponto que as paredes parecem pressionar minhas entranhas até extrair todo o meu ser de dentro de mim. Flerto com a crise, mas a atmosfera soa artificial, pois sei que o pânico não está aqui, ao menos não hoje. Ainda assim, sinto o cheiro de um mundo imaginário, movimento-me como uma peça de lego. Busco uma fresta na janela, respiro o ar gélido que me faz recordar os anos de Europa. Quanta falta haveria de fazer o café Paris ou um cinema qualquer (com pipoca tamanho grande).
Escolho o sapato mais velho, calço, dirijo-me desajeito à porta de saída. O carro parece uma máquina do tempo, algo que me transporta para as mais diferentes dimensões, mecanicamente. Um verdadeiro paradoxo da liberdade, na medida em que me permito imaginar que alguma entidade mística orienta meus movimentos que comandam o veículo. Faço repetidamente o mesmo percurso, andando praticamente em círculo. É o único caminho que conheço com certeza. A sensação de saber o trajeto me concede um pseudo-poder sobre mim mesmo, como se a escolha realmente existisse e eu soubesse, de fato, para onde quero ir.
Um lapso de lucidez surge inexplicavelmente e penso que voltar para casa seja a melhor solução. Mas a solidão é uma companheira perigosa para a mente indecisa. Desejo uma bebida qualquer, desde que tenha álcool ou que seja quente. Mas o processo de concretizar essa idéia me cansa antecipadamente; mais um quarteirão para refletir.
Talvez o ideal seja apenas aproveitar a noite, sentir a brisa no rosto e esquecer os monstros que trafegam pela calçada. A insanidade chega muito perto e isso começa a ficar preocupante. Uma última espiada no relógio antes de partir. Lembranças aceleradas percorrem minha mente. Filmes, frases, bebidas, palavras, beijos, abraços, tapas, gritos, murmúrios, flores, lágrimas, gargalhadas. Um toque, um gesto, uma vida, o abandono, a revolta, a superação, a recaída.
Elas foram embora. Uma a uma. Apagaram-se as promessas. Destruíram-se os laços. Espalhou-se a incredulidade. Sobressai-se a individualidade, a busca pelo tradicional. O branco tão desdenhado volta a estar na moda. O preto tão cultuado torna a ser luto. Os livros não surtem mais efeito. Voltam à tona os discursos mentirosos, aquela pequena vidinha de todo mundo. Compartilhar a loucura, agora, parece insensato. O crescimento se dá na escuridão, na dor e na solidão.
As horas passaram depressa. Os devaneios me desligaram por muito tempo. É hora de voltar. Voltar a ver a vida com simplicidade. Pensar nas coisas básicas de todo dia, como todo mundo, dar margem à mediocridade. É demasiado tarde. A sensibilidade apaga as pegadas da alma. Só podemos ir em frente, ainda que o sangue escorra no rosto. Estamos condenados a isso.
domingo, 30 de agosto de 2009
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
A percepção particular
Pra onde foram aqueles risos sem graça, aquela risada amarela, aqueles gestos tão singelos? Tudo me parece tão distante agora. Vejo as crianças correndo pela calçada molhada da chuva. Escuto uma delas gritando algo em um idioma incerto. O som de sua voz vira melodia aos meus ouvidos e todo o cenário congela, como se o tempo parasse diante daquele grito infantil, que ecoava indefinidamente.
O tempo parou um segundo. Foi pouco para pensar muito. A vida voltou a fluir. Nada eu pude fazer. Os carros, agora, cada vez mais rápido. As crianças correm para o almoço. Os pássaros voltam aos ninhos. Até mesmo as vassouras repousam do trabalho, recostadas no portão metálico. Minha mente grita a ponto de me ensurdecer. Todos voltam pra casa. O dia tem sol escaldante. Eu não enxergo nada. Tudo está negro aos meus olhos. Sento e choro sozinho.
O tempo parou um segundo. Foi pouco para pensar muito. A vida voltou a fluir. Nada eu pude fazer. Os carros, agora, cada vez mais rápido. As crianças correm para o almoço. Os pássaros voltam aos ninhos. Até mesmo as vassouras repousam do trabalho, recostadas no portão metálico. Minha mente grita a ponto de me ensurdecer. Todos voltam pra casa. O dia tem sol escaldante. Eu não enxergo nada. Tudo está negro aos meus olhos. Sento e choro sozinho.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Quando o mundo se faz triste
As lágrimas caiam compulsivamente. Ela não poderia acreditar na notícia, ouvida assim, tão repentinamente. Ele só conseguia focar sua visão num ponto neutro da sala, um branco qualquer da parede, qualquer espaço que contrastasse com a barba serrada do homem que, próximo a porta, observava impotente a aflição de quem acabara de saber do fim do mundo.
Tudo se tornava pequeno naquele instante. O mundo era agora um lugar menor, tão previsível quanto o espaço da sala. Todas as palavras de amor e ódio já proferidas perderam o peso. Restava a esperança dos próximos dias, das declarações que estariam por vir, se é que as bocas ousariam dizer o que a mente mencionava silenciosamente.
De que forma poderiam viver agora? Quais as perspectivas depois daquela trágica tarde? A chuva deixava gotas d’água na vidraça, escorrendo lentamente, tão devagar como as horas demoravam a passar. E todos os dias haveriam de ser assim. Ainda estavam para chegar as palavras de conforto, as esperanças vãs. Mas o fim era algo triste, certo e irreparável.
Era assim que ele se lembrava de tudo, como se ainda fosse hoje, ajoelhado junto á lápide cinza, maltratada pelo tempo. Talvez pudesse ser um sonho, do qual ainda não acordara. Esperava, por Deus, sair do pesadelo, ou, simplesmente, dormir para sempre, ao lado dela, à luz da eternidade. Já em pé, de volta ao carro, lamentava a maldita vida e a má sorte. Beirava a insanidade. Sentia o cheiro dela, como se ainda estivesse ali. E estava.
Tudo se tornava pequeno naquele instante. O mundo era agora um lugar menor, tão previsível quanto o espaço da sala. Todas as palavras de amor e ódio já proferidas perderam o peso. Restava a esperança dos próximos dias, das declarações que estariam por vir, se é que as bocas ousariam dizer o que a mente mencionava silenciosamente.
De que forma poderiam viver agora? Quais as perspectivas depois daquela trágica tarde? A chuva deixava gotas d’água na vidraça, escorrendo lentamente, tão devagar como as horas demoravam a passar. E todos os dias haveriam de ser assim. Ainda estavam para chegar as palavras de conforto, as esperanças vãs. Mas o fim era algo triste, certo e irreparável.
Era assim que ele se lembrava de tudo, como se ainda fosse hoje, ajoelhado junto á lápide cinza, maltratada pelo tempo. Talvez pudesse ser um sonho, do qual ainda não acordara. Esperava, por Deus, sair do pesadelo, ou, simplesmente, dormir para sempre, ao lado dela, à luz da eternidade. Já em pé, de volta ao carro, lamentava a maldita vida e a má sorte. Beirava a insanidade. Sentia o cheiro dela, como se ainda estivesse ali. E estava.
sábado, 22 de agosto de 2009
A sinceridade absurda
Eu vim para perturbar. Quero dificultar. Dispenso a simpatia e todos os sorrisos falsos que me dirigem a todo instante. Prefiro despertar intolerância. Quero polemizar. Não me importa a boa convivência, abandonem as obrigações sociais. Eu não pertenço a essa insignificância cotidiana a qual eles se prendem e me impõem.
Eu sei que eles não dirão. Mas tenho certeza que posso atrapalhar. E é esse meu intuito. Não devo nada a ninguém. Não faço parte dessa corja. Dou um sorriso sarcástico. Espalho signos ambíguos. E esse é meu objetivo. Pretendo levantar a ira. Mostrar quem realmente são. Chega desse esconde-esconde. Veremos quem suporta mais.
Não hesite em suas palavras, pois as ridicularizarei com as minhas. Mostrem suas faces sujas. Nada mais irá tirar o cinismo de meus lábios. Vamos direto aos fatos. Nós nos odiamos, mas não temos coragem de nos destruir. Então vamos iniciar a tortura, a guerra fria.
Não importa o quanto disfarcem. Eu sei que estão incomodados. Usarei os índices a meu favor e atacarei com os símbolos. Eu posso me perder, mas, ainda assim, eu quero atrapalhar. E se houver reciprocidade na raiva, eu serei vencedor.
Eu sei que eles não dirão. Mas tenho certeza que posso atrapalhar. E é esse meu intuito. Não devo nada a ninguém. Não faço parte dessa corja. Dou um sorriso sarcástico. Espalho signos ambíguos. E esse é meu objetivo. Pretendo levantar a ira. Mostrar quem realmente são. Chega desse esconde-esconde. Veremos quem suporta mais.
Não hesite em suas palavras, pois as ridicularizarei com as minhas. Mostrem suas faces sujas. Nada mais irá tirar o cinismo de meus lábios. Vamos direto aos fatos. Nós nos odiamos, mas não temos coragem de nos destruir. Então vamos iniciar a tortura, a guerra fria.
Não importa o quanto disfarcem. Eu sei que estão incomodados. Usarei os índices a meu favor e atacarei com os símbolos. Eu posso me perder, mas, ainda assim, eu quero atrapalhar. E se houver reciprocidade na raiva, eu serei vencedor.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Antigamente
Os corredores escuros recebiam apenas aquela fraca luz amarelada que conferia ao local uma imagem inconfundível de subúrbio, uma pensão como as de antigamente. Os quartos com paredes claras, porém pálidas de umidade absorviam todas as experiências ali realizadas ao longo dos mais de 20 anos de existência do estabelecimento. Diferentes gerações estudantis por ali haviam passados e outras tantas haveriam de passar.
Excitante imaginar as horas de amor que sorrateiramente se passaram ali naquelas camas já reforçadas para não caírem. O cheiro do prédio era uma peculiar referência ao estilo de vida levado pelos seus habitantes.
Rapazes e moças se encontravam entre sorrisos discretos, às vezes uma piscada de olho, como se ainda fossem os anos 70. As saias cada vez mais justas tornavam os passos delas cada vez mais lentos. Os homens trajando jeans admiravam, enfeitiçados, o balanço das pernas em perfeito equilíbrio sobre os saltos sempre altos.
Centenas de juras de amor entre casais, homens e mulheres, milhares de cartas prometidas jamais escritas, amores esquecidos, amizades abandoadas, laços para sempre rompidos. Esse era o futuro certo, sem exceções de todas as relações ali começadas (e terminadas, portanto). Não restavam mágoas, nem esperança, mas a troca de endereços era quase uma formalidade absurda daqueles que partiam para não mais voltar. Outros chegavam tão deslocados como atores recém encaixados numa peça em andamento. Mas rapidamente passavam a se ambientar. E todos ainda haveriam de mudar em poucos dias.
Do outro lado da rua, a “Padaria do Estrangeiro” não poderia ter um nome mais apropriado ao seu sentido lírico, já que a estrutura do lugar, com um pouco de criatividade, parecia a imagem de um grande velho com olhos murchos e tristes a testemunhar toda a dramaticidade da pensão a sua frente. Tinha-se lá uma sensação de abstração, como se a vida corresse diferente do resto.
Quando as obras começaram, ninguém havia percebido, sentado na outra esquina, com poucos cabelos grisalhos, com o rosto sofrido coberto de lágrimas, o olhar triste cansado daquele homem. Todos os dias ele passava as horas observando a reforma, física e tecnológica daquilo que se transformaria num pequeno hotel.
Passados três meses, o hotel já pronto, o homem volta à rua, entra na padaria, pede um café forte e contempla por poucos minutos a nova obra. Observava o fim de uma era e o início de um mundo do qual ele não mais faria parte. Bebeu o café e partiu para casa cantarolando. Agora encontrar a paz.
Excitante imaginar as horas de amor que sorrateiramente se passaram ali naquelas camas já reforçadas para não caírem. O cheiro do prédio era uma peculiar referência ao estilo de vida levado pelos seus habitantes.
Rapazes e moças se encontravam entre sorrisos discretos, às vezes uma piscada de olho, como se ainda fossem os anos 70. As saias cada vez mais justas tornavam os passos delas cada vez mais lentos. Os homens trajando jeans admiravam, enfeitiçados, o balanço das pernas em perfeito equilíbrio sobre os saltos sempre altos.
Centenas de juras de amor entre casais, homens e mulheres, milhares de cartas prometidas jamais escritas, amores esquecidos, amizades abandoadas, laços para sempre rompidos. Esse era o futuro certo, sem exceções de todas as relações ali começadas (e terminadas, portanto). Não restavam mágoas, nem esperança, mas a troca de endereços era quase uma formalidade absurda daqueles que partiam para não mais voltar. Outros chegavam tão deslocados como atores recém encaixados numa peça em andamento. Mas rapidamente passavam a se ambientar. E todos ainda haveriam de mudar em poucos dias.
Do outro lado da rua, a “Padaria do Estrangeiro” não poderia ter um nome mais apropriado ao seu sentido lírico, já que a estrutura do lugar, com um pouco de criatividade, parecia a imagem de um grande velho com olhos murchos e tristes a testemunhar toda a dramaticidade da pensão a sua frente. Tinha-se lá uma sensação de abstração, como se a vida corresse diferente do resto.
Quando as obras começaram, ninguém havia percebido, sentado na outra esquina, com poucos cabelos grisalhos, com o rosto sofrido coberto de lágrimas, o olhar triste cansado daquele homem. Todos os dias ele passava as horas observando a reforma, física e tecnológica daquilo que se transformaria num pequeno hotel.
Passados três meses, o hotel já pronto, o homem volta à rua, entra na padaria, pede um café forte e contempla por poucos minutos a nova obra. Observava o fim de uma era e o início de um mundo do qual ele não mais faria parte. Bebeu o café e partiu para casa cantarolando. Agora encontrar a paz.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
A beleza esquecida
O dia já estava claro quando ele abriu a porta cambaleando, tropeçando nas cadeiras da sala. Jogado no sofá, sem noção de tempo espaço, ele murmurava pedindo o jantar, exalando o cheiro de álcool de uma noite inteira. No início do corredor, com os olhos inchados de chorar, os louros cabelos presos e um penhoar que escondia sua beleza, ela o olhava sem forças para reclamar. Sem opção, serviu o café da manhã, ainda que ele questionasse sobre o jantar, sem resposta.
Assim era a rotina de muitas das noites passadas juntas. Com o tempo, as lágrimas secaram e a bebida era ineficaz para que ele abandonasse a realidade. Inúmeras alternativas foram testadas sem que ela direcionasse sua atenção a isso.
Os anos tornaram o amor morno, mas ela ainda ardia por dentro. Não fossem as obrigações maternas, talvez tivesse partido. A falta de cumplicidade chegou a tal ponto que não havia nada mais a piorar. E foi aí que as coisas passaram a se sustentar pelo comodismo, pela total falta de ação (e de opção).
Mas haveria de chegar a noite em que outros olhos veriam os seus. E quando chegou, ela sobe ser olhada, sentiu, talvez, uma breve satisfação em ser de novo desejada. O sorriso em seu rosto a cada vez que os olhares se cruzavam denunciava a satisfação. A apreensão do instante seguinte refletia o desprezo que sentia pelo fato de ter que voltar para casa no final da noite, sem que uma palavra pudesse ser trocada com seu admirador.
Os mundos são tão diferentes. Ela voltou para casa, percorrendo o mesmo caminho de todos os dias, pensando nos mesmos sonhos de todas as vezes, sofrendo pelos motivos de sempre. Chegou em casa exausta e de longe sentia o cheiro de bebida barata. Porém, dessa vez, um encontro íntimo, um toque mecânico, quase uma obrigação. Movimentos robóticos. Melhor assim, pois poderia fechar os olhos e lembrar-se de quão bom poderia ser. De repente, o alívio. Acabara. E ela chora, mais bela do que nunca.
Assim era a rotina de muitas das noites passadas juntas. Com o tempo, as lágrimas secaram e a bebida era ineficaz para que ele abandonasse a realidade. Inúmeras alternativas foram testadas sem que ela direcionasse sua atenção a isso.
Os anos tornaram o amor morno, mas ela ainda ardia por dentro. Não fossem as obrigações maternas, talvez tivesse partido. A falta de cumplicidade chegou a tal ponto que não havia nada mais a piorar. E foi aí que as coisas passaram a se sustentar pelo comodismo, pela total falta de ação (e de opção).
Mas haveria de chegar a noite em que outros olhos veriam os seus. E quando chegou, ela sobe ser olhada, sentiu, talvez, uma breve satisfação em ser de novo desejada. O sorriso em seu rosto a cada vez que os olhares se cruzavam denunciava a satisfação. A apreensão do instante seguinte refletia o desprezo que sentia pelo fato de ter que voltar para casa no final da noite, sem que uma palavra pudesse ser trocada com seu admirador.
Os mundos são tão diferentes. Ela voltou para casa, percorrendo o mesmo caminho de todos os dias, pensando nos mesmos sonhos de todas as vezes, sofrendo pelos motivos de sempre. Chegou em casa exausta e de longe sentia o cheiro de bebida barata. Porém, dessa vez, um encontro íntimo, um toque mecânico, quase uma obrigação. Movimentos robóticos. Melhor assim, pois poderia fechar os olhos e lembrar-se de quão bom poderia ser. De repente, o alívio. Acabara. E ela chora, mais bela do que nunca.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Quando as bocas se calam
Dois ou três terços de hora de pura hostilidade recíproca. Nada que os ponteiros do relógio não possam consertar com seu simples movimento lento. O silêncio perdura. Até mesmo o pensamento se cala. Poucas palavras ameaçam ser imaginadas, até que algum solavanco no banco do táxi trouxesse a realidade à tona.
Ao chegar, vê-se a janela semi-aberta. Cortinas ao vento. Uma casa convencional que escondera histórias por séculos. Mais de vinte almas enterradas e esquecidas no interior daquelas paredes. Tudo tão perdido que não pode perceber. Mas ainda há uma atmosfera alheia aos últimos anos.
Não poderia ser tão ruim olhar-se no espelho, mesmo não se reconhecendo. Esse processo leva cerca de quatro horas. Um desligamento total do universo, para concentrar-se unicamente na própria imagem, perceber as imperfeições, para não mais esquecê-las. Cada poro do rosto carrega um estigma.
Resolvem se falar. Apenas o essencial. Um café frio chega à mesa. Um gesto de reprova, mas nenhum comentário adjacente. As luzes ainda apagadas deixam a sala ligeiramente escura e sol já vai se pondo.
Na noite consiste a certeza do sono. Deitam-se nos lençóis claros, pesados, assustadores como fantasmas em lua cheia. Os olhos permanecem abertos para nunca mais fecharem. Caberia uma música, mas todos agora estão condenados ao silêncio. Definitivamente.
Ao chegar, vê-se a janela semi-aberta. Cortinas ao vento. Uma casa convencional que escondera histórias por séculos. Mais de vinte almas enterradas e esquecidas no interior daquelas paredes. Tudo tão perdido que não pode perceber. Mas ainda há uma atmosfera alheia aos últimos anos.
Não poderia ser tão ruim olhar-se no espelho, mesmo não se reconhecendo. Esse processo leva cerca de quatro horas. Um desligamento total do universo, para concentrar-se unicamente na própria imagem, perceber as imperfeições, para não mais esquecê-las. Cada poro do rosto carrega um estigma.
Resolvem se falar. Apenas o essencial. Um café frio chega à mesa. Um gesto de reprova, mas nenhum comentário adjacente. As luzes ainda apagadas deixam a sala ligeiramente escura e sol já vai se pondo.
Na noite consiste a certeza do sono. Deitam-se nos lençóis claros, pesados, assustadores como fantasmas em lua cheia. Os olhos permanecem abertos para nunca mais fecharem. Caberia uma música, mas todos agora estão condenados ao silêncio. Definitivamente.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Pintura cotidiana
O ar condicionado parecia incapaz de superar o calor exaustivo dentro do carro. A preguiça após a exagerada refeição caseira tornava o caminho de volta ainda mais longo e cansativo. O peso dos problemas do dia-a-dia dava ao dia um ar de desânimo, com a falta da grana, a consulta no médico, o combustível acabando, as crises existenciais enfim.
Quando aquele parecia mais um dia comum, a imagem do caminhão lento a frente deveria ser mais um indício de irritação. Mas o olhar distante dos trabalhadores transportados junto ao piche congelou a cena. Não havia desilusão nem esperança naqueles olhos. Apenas a espera por mais um ponto de pista a ser reformado. O incômodo do transporte improvisado, junto ao material sujo de trabalho, não parecia uma aberração. Apenas uma circunstância esperada, não desejada, tampouco repudiada.
Poucos segundos e o caminhão (como se o veículo tivesse vida própria) abre espaço para o carro, que hesita a ultrapassagem para contemplar a pintura por mais alguns breves instantes. Ao passar, ainda há um aceno, um gesto corriqueiro, mas com um ar de reconhecimento humano, de cumplicidade emocional. E o caminhão desaparece para sempre do retrovisor.
Quando aquele parecia mais um dia comum, a imagem do caminhão lento a frente deveria ser mais um indício de irritação. Mas o olhar distante dos trabalhadores transportados junto ao piche congelou a cena. Não havia desilusão nem esperança naqueles olhos. Apenas a espera por mais um ponto de pista a ser reformado. O incômodo do transporte improvisado, junto ao material sujo de trabalho, não parecia uma aberração. Apenas uma circunstância esperada, não desejada, tampouco repudiada.
Poucos segundos e o caminhão (como se o veículo tivesse vida própria) abre espaço para o carro, que hesita a ultrapassagem para contemplar a pintura por mais alguns breves instantes. Ao passar, ainda há um aceno, um gesto corriqueiro, mas com um ar de reconhecimento humano, de cumplicidade emocional. E o caminhão desaparece para sempre do retrovisor.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Sobre ser bom
Ser bom não é um gesto nobre. É uma escolha justa. Não há recompensas para a honestidade, pois se houvesse, seria uma barganha corrupta consentida. Não espere receber em dobro pelo que pagou de direito. Ninguém lhe retribuirá com doces e sorrisos a sua hombridade. Fazer o certo é uma questão de caráter. Se o troco a mais do restaurante for devolvido por qualquer outro motivo que não seja o óbvio, é melhor ficar com o dinheiro. Acredite, para ser uma pessoa má é necessário muito mais coragem e preparo.
domingo, 2 de agosto de 2009
Um certo incômodo
A anestesia já fez efeito. Fotos e lembranças não são mais importantes. Talvez, ainda, um leve incômodo, mas outros mundos serão criados, com habitantes ainda mais interessantes. Não há sequer uma chance qualquer de outras palavras serem ditas ou alteradas em sua semântica. “Sempre”, “nunca”, “adeus” e tantos outros elementos retóricos continuam a ter seus sentidos preservados.
Menos tempo será perdido com tais reflexões. As cadeiras continuam na sala, mas agora basta uma. A casa toda vazia, os móveis sempre no mesmo lugar. Um alívio esquisito, com gosto de riso escondido. Fim das desculpas, das declarações ambíguas e todo incômodo.
Menos tempo será perdido com tais reflexões. As cadeiras continuam na sala, mas agora basta uma. A casa toda vazia, os móveis sempre no mesmo lugar. Um alívio esquisito, com gosto de riso escondido. Fim das desculpas, das declarações ambíguas e todo incômodo.
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